SOBRE O PAGAMENTO DO ANALISTA
Trabalho apresentado no Fatias de Análise
Por Hugo Leonardo Goes Bento ( Psicanalista; psicólogo (CRP 04/39401);
mestrando em Psicologia pela PUC Minas; bolsista de
mestrado pela FAPEMIG.)
"Agora que um considerável número de pessoas está praticando a Psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas..." (Freud, 1910)
Este trabalho tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre a questão do pagamento na clínica psicanalítica. Contudo, ao invés de focarmos nossas atenções e esforços no pagamento efetuado pelo analisante em tratamento, destacaremos o pagamento realizado pelo analista na condução de uma cura; pagamento este, registrado por Jacques Lacan em seu texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (1958/1998, p.593): “pagar com palavras”; pagar com “sua pessoa” e pagar com “seu juízo mais íntimo”.
Numa época em que os tratamentos psicanalíticos eram caracterizados por padrões rígidos e constantemente reafirmados, Lacan retomou a escrita freudiana e reafirmou o valor da experiência clínica para o estabelecimento de princípios. Julgamos importante ressaltar que padrões e princípios não são sinônimos. De forma simplificada, podemos afirmar que padrão é um modelo a ser copiado, uma regra ou um comando imperativo. Princípio, diferente de padrão, é fundamento, é base de sustentação para combinados, contratos e pactos, princípios são alicerce e disposição basal.
Assim, é na dimensão do princípio que o pagamento (Etimologicamente, a palavra pagamento advém do latim pacare, que significa “apaziguar, aplacar, satisfazer”.) se apresenta na clínica psicanalítica:
"Digamos que, no investimento de capital da empresa comum, o paciente não é o único com dificuldades a entrar com sua quota. Também o analista tem que pagar" (Lacan, 1958)
Há pagamento em análise. Lacan reconheceu que em um tratamento o pagamento é marcado por dificuldades. Contudo, o diferencial do texto lacaniano encontra-se na postulação: “Também o analista tem que pagar” (Lacan, 1958). Entretanto, com o quê o analista paga?
Primeiro: “- pagar com palavras, sem dúvida, se a transmutação que elas sofrem pela operação analítica as eleva a seu efeito de interpretação;” (Lacan, 1958). O pagamento do analista com palavras caracteriza-se, principalmente, pelo trabalho de modificação que atinge os termos de uma língua apresentados por um analisante no desenrolar de um tratamento. Por meio da escansão, da consideração para com as homofonias, da pontuação e, também, dos momentos de silêncio, as palavras sofrem transformações expressivas no setting analítico. Vale lembrar que tais modificações não são sem efeitos.
"É que ao tocar, por pouco que seja, na relação do homem com o significante, no caso, na conversão dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de sua história, modificando as amarras de seu ser." (Lacan, 1957)
Segundo: “- mas pagar também com sua pessoa, na medida em que, haja o que houver, ele a empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu na transferência;” (Lacan, 1958/). Ao emprestar sua pessoa à transferência, o analista paga.
De acordo com São Tomás de Aquino, persona é o que há de mais perfeito no Universo, uma vez que é dotada de racionalidade e capacidade de reflexão (Mondin,1998). Na perspectiva do tomismo, a racionalidade, então, é o que torna possível dizermos que o homem é pessoa. Entretanto, a história da Filosofia nos apresenta diversas definições de pessoa e, de acordo com Battista Mondin (1998), podem ser classificadas em três categorias:
"Várias são as definições propostas, de vários gêneros e podem ser reunidas em três grupos: definições psicológicas, que são aquelas apontadas por Descartes, Hume, Fichte e, que identificam a pessoa com a auto consciência; definições dialógicas: são aquelas de Mounier, Ricoeur, Lévinas, Buber, que afirmam consistir a pessoa na capacidade de dialogar com os outros; definições ontológicas, que afirmam ser a pessoa a própria essência, a substância, ou mesmo, o ser do homem. (Mondin, 1998)
Parece-nos que, quando Lacan afirma que o analista paga com sua pessoa na condução do tratamento psicanalítico, a concepção de pessoa implícita no texto é aquela que considera aspectos egóicos e relacionais específicos de uma individualidade. Dito de outra forma, entendemos que o termo pessoa, no trecho lacaniano acima citado, refere-se às preferências, inclinações sexuais e aspirações intelectuais de um indivíduo.
Em seu artigo sobre a técnica psicanalítica “Observações sobre o amor transferencial”, Freud escreveu que o tratamento psicanalítico só pode ser levado a cabo por meio do princípio da abstinência (Freud, 1914). O analista teria, na perspectiva freudiana, o compromisso ético de não atender todas as demandas e solicitações dos pacientes, a fim de que um mínimo de tensão psíquica necessário para o trabalho das associações livres e das atualizações transferenciais estivesse presente. Este princípio foi reafirmado em “Linhas de progresso na terapia psicanalítica” (1918), texto freudiano em que a dimensão terapêutica da análise foi apresentada em direta relação com a história da Psicanálise.
Propomos, aqui, a aproximação entre o pagar com sua pessoa e o princípio da abstinência, uma vez que ambos relacionam-se com o manejo transferencial e, principalmente, com a atualização, no setting analítico, da impossibilidade de plena satisfação que marca todos os seres humanos.
Terceiro: “ele tem que pagar com o que há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que vai ao cerne do ser” (Lacan, 1958). Uma vez que não é a partir de seus sentimentos mais particulares, ou, que não é por meio da consideração para com as emoções que seus analisantes lhe suscitam, que o analista dirige um tratamento, mas, sim, por escutar os significantes presentes na fala de cada um dos que se submetem ao método psicanalítico, Lacan pontuou o pagamento do analista com “seu juízo mais íntimo” (Lacan, 1958).
Que isto quer dizer – pagar com seu juízo mais íntimo? Podemos interpretar a proposição lacaniana sinalizando a impossibilidade de o analista escutar o desejo inconsciente se, desde o princípio, ocupa o lugar de juiz em um tratamento. Estar avisado de que, enquanto analista, dirige-se o tratamento, não se dirige o paciente, é fundamental. “O psicanalista certamente dirige o tratamento. O primeiro princípio desse tratamento, o que lhe é soletrado logo de saída, que ele encontra por toda parte em sua formação, a ponto de ficar por ele impregnado, é o de que não deve de modo algum dirigir o paciente.” (Lacan, 1958). Contudo, para que tal princípio de direção seja, de fato, presentificado na condução de uma cura, a análise do analista revela sua importância.
Conversemos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, Sigmund. As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica (1910).
In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996. v.XI, p.143-156.
______. Observações sobre o amor transferencial (1914-15). In:______. Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Editora Imago, 1996. v.XII, p.174-195.
_______. Linhas de progresso na terapia psicanalítica (1918-19). In:______. Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Editora Imago, 1996. v.XVII, p.170-181.
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud
(1957). In:______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.496-533.
_______. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In:______.
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.591-652.
MONDIN, Battista. Definição filosófica da pessoa humana. São Paulo: EDUSC,
1998.

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