Os Três Ensaios Sobre
as Medidas Socioeducativas
Por Eduardo Lucas Andrade
INTRODUÇÃO:
“Qual é a sua parte na desordem de que você se queixa?” (Freud, 1905).
A pedra angular do presente relatório é a descoberta
freudiana que toca o inconsciente, suas relações de mundo e o lugar do
analista. É a psicanálise sendo colocada em ato no século XXI. Pressupostos
Ferenczianos quanto à técnica analítica também sustentam as novas práticas e
aplicabilidades éticas, assim como, adentram o campo das políticas públicas.
A psicanálise nas políticas públicas já era desenhada por
Freud por linhas tortas. O inconsciente é político, busca laços e se manifesta
nas relações.
O presente ensaio tem como setting de atuação a clínica
do ato infracional, uma extensão da realização de desejo em encontros e
desencontros com o superego, o ego sofre de reminiscências políticas!
No CREAS, em específico nas medidas socioeducativas ,o
ato é o centro das atenções, o arranjo eleito para dar vazões às pulsões.
Fadados a um império de insaciedade pulsional jovens desamparados pelo lugar do
pai encontram um superego cuja cultura é a da pulsão de morte, atuam,
cegamente, sem elaborações quanto ao desejo. Pelo jurídico são encaminhados ao
serviço que deve estar atento à construção da transferência para ser causa de
desejo por detrás daquela demanda que por consequência e responsabilidade
pertencem ao sujeito.
A psicanálise deve estar ali para amparo e desassossego.
Amparo como direito de ser escutado, na transferência, o direito de falar! E
desassossego pelo dever de se responsabilizar pelo próprio inconsciente e
pulsões. Vale lembrar que a cena causa é inconsciente, não inconsequente!
A estes podemos ofertar, baseados nas políticas públicas,
novos arranjos para aquilo que promoveu o ato. Temos um corpo e uma linguagem à
deriva para serem trabalhados juntos à eleição do ato.
Por estas e outras é que o
lugar do analista deve ser ensaiado!
O título Três Ensaios é um marco à parte para o
surgimento da psicanálise e creio que seja também um marco a parte para o
surgimento de toda análise. Freud utiliza o título dos Três Ensaios ao menos em
duas ocasiões, em 1905 nos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade e em 1934
no artigo Moises e o Monoteismo: Três Ensaios.
O analista se prepara, ensaia, segundo Freud, pela
análise do próprio sonho, do próprio inconsciente, enfim, pela própria análise.
Ferenczi reafirma a necessidade deste compromisso com a própria análise e
coloca-o como a sendo a segunda regra fundamental da psicanálise, a primeira
foi estabelecida por Freud no campo da associação livre. Nas palavras trocadas
entre estes dois autores também encontraremos a supervisão como sustentação de
ensaio para a prática. O lugar do analista e seu desejo devem ser observados de
perto!
Além do ensaio, temos em Freud um Projeto Para Uma
Psicologia Científica, o que mais uma vez nos remete a ideia de um preparo
inicial para a inauguração do ato analítico. Particularmente ao âmbito clínico,
Freud em 1913, postula a importância do tratamento de ensaio e das entrevistas
preliminares. Ferenczi postula sobre a necessidade de às vezes ocuparmos o
lugar de “João-teimoso” para que o paciente possa exercitar na construção da
transferência seus afetos e desprazeres. Ainda com Ferenczi, – autor inovador
da metapsicologia do analista - podemos pensar em indagar quais são as
entrevistas de ensaios do próprio psicanalista e ainda, quais seriam os três
ensaios do lugar e desejo do analista?
Elaboro para pensarmos os três ensaios sobre as medidas
socioeducativas os ensaios; Primeiro, o ensaio teórico, este seria o ensaio do
conhecimento, algo do suposto saber social. Segundo, o ensaio tático (tato –
sentir com), este seria o ensaio ético, algo do autorizar-se a si mesmo. Terceiro,
o ensaio prático, da aplicabilidade da técnica, este seria o ensaio do saber
fazer com, algo da elasticidade da técnica.
Antes de tocar em cada ensaio em “SUAS” particularidades,
convido a analisarmos o que há por detrás das palavras “medidas - sócio - educativas”.
Consultando brevemente um dicionário podemos eliminar o caráter numérico,
matemático e ordenador da palavra medida. O dicionário nos oferece para esta
palavra os significados de precaução, plano, projeto, providência, alcance e
possibilidade. A palavra “sócio” me faz pensar no compromisso social, na
política da palavra, na luta pelo tratamento do desejo no andar pela cidade. Já
a palavra “educativas”, vale abordá-la no plural, é variada pela escuta de cada
um, não é a aplicabilidade de uma pedagogia da pulsão e sim ser causa de
desejo, treinando habilidades, esclarecendo possibilidades e trabalhando
responsabilidades, é assim que o impossível de educar pode ser singularizado na
inserção social de cada caso.
1 – Ensaio teórico: Um psicanalista, seja ele quem for,
deve conhecer a teoria que sustenta sua prática e a existência de seu serviço.
Por exemplo, a psicanálise deve estar na ponta da escuta do analista, saber
ouvir aquilo que é da pulsão, aquilo que é do inconsciente, da transferência,
da repetição, resistência, angústia e seus afins são as bases de qualquer
oportunidade para intervir e ou interpretar, para fazer acontecer algo da
psicanálise, isto é, algo do aprofundar-se na história de vida de si mesmo.
Em particular no campo das medidas socioeducativas é
preciso ainda estar atento ao ECA, aos direitos humanos, ao saber fazer com a
rede e ou inventar ali onde ela falha e ainda estar atento às recomendações
técnicas. Ainda que a psicanálise seja uma clínica sem garantias, o serviço
está ali para garantir direitos e por que não o direito à fala?! Neste campo
estamos situados entre o crime e a palavra! Não podendo colocar estes sujeitos
no divã, podemos ao menos promover uma análise do caráter.
Com a psicanálise trabalharemos a responsabilidade e conseqüências fronte ao ato infracional cometido, dribles do desejo e suas realizações. Com o ECA, estamos situados na lógica antimanicomial, uma aposta no tratamento social, acreditando que é possível que o sujeito do inconsciente seja um sujeito de direito.
Com a psicanálise trabalharemos a responsabilidade e conseqüências fronte ao ato infracional cometido, dribles do desejo e suas realizações. Com o ECA, estamos situados na lógica antimanicomial, uma aposta no tratamento social, acreditando que é possível que o sujeito do inconsciente seja um sujeito de direito.
O ECA na lei 8.069/1990 propõe que o adolescente que
comete ato infracional perpasse pela advertência, pelo reparo ao patrimônio
público, prestação de serviços à comunidade, pela liberdade assistida, pela
semi-liberdade e por fim pela internação/prisão, privação da liberdade. A
psicanálise não deve recuar fronte ao tema da liberdade! Ou a privação dela.
O ensaio da base teórica evita que entremos em campos
pelos quais combatemos, evita que viremos pelo avesso. Ali onde poderíamos
assumir o discurso do mestre a causa de desejo deverá advir. A advertência é
algo do campo policial, moral, que não compete ao campo do discurso analítico.
Na prestação de serviços podemos promover, sem colocar o adolescente em vexame,
humilhação e tortura, o laço social, trabalhando suas habilidades e campo de
interesse. Na liberdade assistida podemos escutar o envolvimento do adolescente
em relação à sua psicopatologia cotidiana (Freud, 1906) e aqui podemos provocar
Insights, novos rumos para as pulsões, promover desassossegos para sublimações
e caso a escassez de linguagem se faça presente podemos ser causa de desejos.
Lutando contra a hipocrisia profissional nos posicionamos
contra generalizações dos ditos tratamentos aos atos, sejam eles quais forem. O
tratamento ao ato se faz na clínica com cada um, assim desenha a teoria. O ato
é realização de desejo ou satisfação de pulsão, assim sendo, deverá ser
trabalhado na singularidade de cada sujeito. Não há crime sem castração, é
preciso que haja alguma castração para que o sujeito cometa um crime e realize
seu desejo proibido.
A questão do ato infracional toca o chão da teoria do
recalque, dos destinos da pulsão, da moral civilizada clinica do superego e de
outros conceitos psicanalíticos.
2- Ensaio Ético: Qual ética está em jogo? Se tratando da
psicanálise, podemos afirmar com Ferenczi que é a ética do analista, com Freud
que é a ética da escuta e com Lacan que é a ética do desejo. Toda ética
desassossega! Ética é fazer o que deve ser feito.
Ética do desejo, partindo daquilo que os supracitados
autores postularam, é a ética do analista que escuta o desejo em seus complexos
relacionamentos de falta. Desejar não é sem consequência, este é um ponto
necessário para se pensar a ética do desejo. Outro ponto, que pega embalo no
ensaio teórico, é saber diferenciar desejo de gozo.
O desejo faz laço social, busca um outro, é do
inconsciente e seu material é de linguagem. O desejo é algo da civilização,
broto da castração. Pode ser realizado em sonhos e alucinações, atos falhos e
em atos infracionais, no chiste e no humor, e ainda em sintomas e fetiches em
geral, faz parte da realização social da perversão sexual infantil. O perverso
pode ser um beijo, per-verso pode ser uma poesia e pode ser aquele que goza à
luza do dia. Este último tipo de perversão é a que elege a ética do gozo, isto
é, destruição pela satisfação, satisfazer-se a qualquer custo independente de
linguagem e laço social, provocar horror e aniquilar a existência dos demais
falos que não o próprio desmentindo todo tipo de falta narcísica que a si mesmo
pertence, pelo gozo executa o assassinato do prazer e ordena a morte do desejo.
Sendo o lugar do analista aquele que promove a causa de
desejo este é também o lugar que pontua a existência da falta e não compactua
com impérios de gozo. É por esta escuta que o adolescente passará, questões
sobre a própria vida e modos de lidar com suas pulsões e relações com o
supereu.
Ainda pensando no ensaio ético vale destacar que conhecer
o limite do próprio serviço e de sua própria capacidade profissional, uma
franqueza do analista, é base para a ética, afinal, questionar-se a si mesmo é
um ponto ético! Freud também já alertava que não podemos esquecer que o
relacionamento analítico se baseia no amor à verdade!
É preciso, neste ensaio ético, que o analista desça de
seu salto narcísico e indague-se até o ponto que conseguirá ir. A depender de
Ferenczi e Freud, o analista só conseguirá avançar até o ponto que alcançou com
os avanços de seus próprios complexos em sua própria análise, aqui também vale
lembrar do valor da supervisão e da análise do analista.
O ensaio ético faz pensar ainda em quais dispositivos,
algo do material histórico, material de história de vida, temos para avançar.
Tocar na dor, alerta Freud, sem material para tratá-la é inapropriado para
qualquer análise. Ferenczi situa a compulsão à interpretação ao campo das
doenças infantis do analista. Freud defende que aquele, psicanalista, que
convoca os piores demônios do fundo da mente deverá com eles conversar.
Ferenczi, se pensarmos que o sofrimento persistirá, postula que aprender a
suportá-lo é das tarefas da análise.
É preciso traçar estratégia de trabalho, promover
transferência de trabalho, não recuar e acolher para promover! É triste,
anti-ético, uma clínica onde o desejo manicomial habita o profissional, se
assim podemos chamá-lo. Lembremos que Freud postulava que a escuta flutuante é
aquela sem preconceito, julgamento ou moralidade.
3 – Ensaio prático: O mal-estar na civilização segue
sendo anatômico, político e catastrófico. Desta forma fronte ao mal-estar, a
angústia como sinal de alerta temos, mais uma vez, que nos indagar. O que pode
ser feito na clínica do ato com cada um? Ou ainda, do que trato e como trato?
O trabalho nas medidas socioeducativas é feito em equipe,
em rede e o psicanalista usa e abusa dos buracos da rede. Na prática devemos
ofertar uma escuta que convoque à fala do inconsciente. O inconsciente ama
aquilo que lhe dá voz!
Devemos lembrar que a pulsão é plástica e que são elas os
verdadeiros motores do progresso e que novos destinos são possíveis. Situados
no campo da pulsão, Ferenczi desenha a importância da acolhida da pulsão de
morte.
É necessário instaurar a análise do eu na psicologia das
massas, para que ali onde, com as pulsões, os adolescentes em grupo descem na
escada da civilização, eles possam se realizar em laços de linguagem. Freud
ainda nos fala que é preciso não só evitar a morte e sim ofertar vida. É aqui a
nossa prática, no campo das pulsões que estão velados por aqueles atos.
A realização da pulsão não é uma realização do sujeito! O
ser é castrado, ser de desejo, ser da falta e com ela deverá se haver. Caso
contrário, estaremos falando da psicose e devemos seguir estes três ensaios
para saber que o seu tratamento se dará em outro campo.
Analisar é impossível, a análise é leiga, o futuro é de
uma ilusão, a psicopatologia está na vida cotidiana, interpretar tem seu lugar,
confusões de língua existem e é por estas e outras que é preciso ao menos
escutar para que possamos promover o direito à fala e por sequência, algo da
análise!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FERENCZI, S. (1908). (1990). Obras Completas de S.
Ferenczi, vol. I. São Paulo: Martins Fontes.
(1929) “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”. vol. IV
(1932). “Diário Clínico”. vol IV
(1933). “Confusão de línguas entre os adultos e a criança”. vol IV
FREUD, S. (2006). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago.
(1895) “Projeto Para Uma Psicologia Científica” v. III
(1900) “A Interpretação dos Sonhos (II)”, v. V
(1901) “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”, v. VI
(1905) “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”, v. VIII
(1906) “‘Gradiva’ de Jensen”, v. IX
(1911) Artigos Sobre Técnica e Outros Trabalhos. v. XII
(1914). "Recordar, repetir e elaborar", v. XII
(1915) “Artigos sobre a Metapsicologia”, v. XIV
(1920). "Além do princípio do prazer", v. XVIII
(1925) “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, v. XX
(1926) “A Questão da Análise Leiga”, v. XX
(1937) Análise Terminável e Interminável, v. XXIII
(1929) “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”. vol. IV
(1932). “Diário Clínico”. vol IV
(1933). “Confusão de línguas entre os adultos e a criança”. vol IV
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(1901) “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”, v. VI
(1905) “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”, v. VIII
(1906) “‘Gradiva’ de Jensen”, v. IX
(1911) Artigos Sobre Técnica e Outros Trabalhos. v. XII
(1914). "Recordar, repetir e elaborar", v. XII
(1915) “Artigos sobre a Metapsicologia”, v. XIV
(1920). "Além do princípio do prazer", v. XVIII
(1925) “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, v. XX
(1926) “A Questão da Análise Leiga”, v. XX
(1937) Análise Terminável e Interminável, v. XXIII

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