sábado, 6 de dezembro de 2014

TRAÇADOS SOBRE A MORTE E A ELABORAÇÃO DO LUTO.

Por Wector Freitas




TRAÇADOS SOBRE A MORTE

Hoje se entende que o hospital é um ambiente no qual a vida se desenrola em seu cotidiano e que o psicanalista é um dos personagens que quase sempre estará participando dos momentos junto aos pacientes, famílias e amigos.
Entendemos que, a atuação do psicanalista, não se refere apenas à atenção direta ao paciente, junto às famílias e amigos, mas sim promovendo mudanças e atividades curativas e de prevenção ao seu sintoma. Como se vê a psicanálise no hospital é uma técnica que se propõe a trabalhar com o sofrimento do sujeito frente a seu sintoma e hospitalização, seu objetivo não é a cura, mas ajudar o sujeito para que ele tome nota de seu sintoma e aprenda a lidar melhor com sua passagem pela patologia.
A psicanálise foi criada por Freud em um hospital, partindo das observações e escutas constituídas de seus pacientes sobre as neuroses, desenvolveu as teorias psicanalíticas de investigação da mente humana; seus traumas, fobias, complexos, pulsões, conflitos e transtornos.
Assim, temos uma psicanálise, que se constrói a cada dia uma prática, uma técnica, que possibilita o surgimento da palavra naquele sujeito que sofre, ou seja, auxiliando no campo para que seu quadro não evolua. É neste sentido que a psicanálise se insere lidando diretamente com a subjetividade do sujeito, tornando-se possível um maior suporte de suas angústias.
Freud (1915), nos fala sobre a transferência e libido ao corpo do sujeito que padece de causas orgânicas.
“No que tange à doença orgânica, seguirei a sugestão verbal de S. Ferenczi de que devemos levar em conta a influência da enfermidade orgânica sobre a distribuição da libido. Todos sabemos e consideramos natural que o sujeito atormentado por uma dor orgânica e por incômodos diversos deixe de se interessar pelas coisas do mundo exterior que não digam respeito ao seu sofrimento. Uma observação mais acurada nos mostra que ele também recolhe seu interesse libidinal dos objetos de amor e que, enquanto estiver sofrendo, deixará de amar. Apesar da banalidade desse fato, não devemos deixar de traduzi-lo para os termos próprios da teoria da libido.Diríamos então: o doente recolhe seus investimentos libidinais para o Eu e torna a enviá-los depois da cura. “A alma inteira encontra-se recolhida na estreita cavidade do molar”, diz W. Busch sobre o poeta que sofre de dor de dente. Nesse caso, tanto a libido quanto o interesse do Eu têm o mesmo destino e são, mais uma vez, indiferenciáveis entre si. O tão conhecido egoísmo do doente abarca ambos. As pessoas acham esse egoísmo natural, porque sabem que em situação semelhante se comportariam da mesma forma.”
Segundo Valeska Pessato (2011), por meio da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se conectar com ideias recalcadas que produzem os sintomas atuais. Assim, ele passa a ter uma nova compreensão desta memória. Supõe-se que, na medida em que o paciente mantêm ideias recalcadas de eventos ligados ao passado, este passado torna-se presente, uma vez que é constantemente atualizado através dos sintomas, quando a reação é reprimida, o afeto permanece ligado à lembrança e produz sintoma. Lembranças significativas que os pacientes relutavam em apresentar. As cenas trazidas à mente tinham, frequentemente, um efeito catártico.
A vida do ser humano está em constante mudança, o meio onde ele vive participa de tais mudanças. Para que o sujeito se adapte é necessário um tempo, mas, não significa que irá se adaptar, às vezes este ambiente pode lhe trazer uma grande dor, tristeza, ansiedade, depressão e outros problemas que impossibilita o sujeito de viver sem sofrimento. Sabemos que o mal-estar está presente em nosso dia a dia.
A construção de cada caso é feito a partir da representação que o paciente tem de seu próprio sintoma, em particular da sua patologia, envolvendo aspectos de sua formação cultural, social e individual, é de cada sujeito. Em certos casos o psicanalista irá encontrar situações onde a identidade do paciente é substituída, passando a ser identificado como um órgão doente, ou mesmo um número.
O sujeito se vê a beira de um precipício, já não há mais sentido de viver, a doença dominou sua vida, acabando com seus sonhos e desejos. Diante da família ele se vê em uma total inutilidade, aqueles sintomas o arrasaram como uma tempestade de verão, levando todos os teus sonhos e desejos para um leito de hospital. O sujeito perde sua total autonomia, tornando-se estorvo para si próprio, família e amigos. Naquele momento o sujeito torna-se inválido diante de seu olhar e do olhar do Outro.
Deve se estar alerta, principalmente, à maneira como o paciente reage frente ao seu diagnóstico. Como a vida psíquica e social interfere na dinâmica subjetiva do sujeito. O hospital é um lugar de experiências humanas muitas vezes extremas. Muitas vezes a fragilidade do corpo, com a dor, com o sofrimento são emaranhados junto às perdas e tristezas.
O psicanalista deve estar disponível para acolher o sujeito, escutar seus medos, suas fantasias em relação à possibilidade de perda, expectativas, sobretudo se a situação é de grande risco.
Em associação livre com alguns pacientes, nota-se um grande medo, “o medo da morte”, o medo de morrer sozinho, medo de alguém morrer ali do lado. O medo pode ser um fator pelo qual o paciente se angustia, nos relatos eles falam da morte de companheiros de quarto que morreram ali próximos a eles. Um medo inevitável, na qual a ansiedade toma conta do sujeito causando uma profunda dor na alma. Aprender a suportar este medo constitui um dos objetivos principais da análise aponta Ferenczi.
O novo e o desconhecido e algo que assusta todos nós. Como pensar no novo e no desconhecido sem pensar na morte?
A sociedade, ainda hoje considera a morte um tabu, um tema evitado, ignorado, postergado, fazendo com que vejamos a morte como algo que acontece com os outros e não conosco. O medo da morte é muito grande entre as pessoas, pois, nunca estaremos preparados para morrer ou ver alguém morrer. É preciso falar da morte!

ELABORAÇÃO DO LUTO

Em seu texto Reflexões para os tempos de guerra e morte, Freud (1915), nos fala de nossa atitude para com a morte, afirma que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade. “Quando se trata da morte de outrem, o homem civilizado cuidadosamente evita falar de tal possibilidade no campo auditivo da pessoa condenada. Apenas as crianças desprezam essa restrição e desembaraçadamente se ameaçam uma às outras com a possibilidade de morrer, chegando inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa com alguém que amam, como, por exemplo: “Querida mãezinha, quando você morrer eu farei isso ou aquilo”. Dificilmente o adulto civilizado sequer pode alimentar o pensamento da morte de outra pessoa, sem parecer diante de seus próprios olhos empedernido ou malvado; a menos que, naturalmente, como médico ou advogado ou algo assim, tenha de lidar com a morte em caráter profissional.
Já o olhar do analista diante do sofrimento do sujeito deverá sempre fazer suas análises e supervisão.
Com as perdas as famílias e amigos sofrem, ficando toda desajustada, alguns membros adoecem por não conseguirem superar a perda. Sendo assim, o psicanalista atuará de uma forma à ajudar a família a se ajustar e em muitas vezes, preparar aquela família para a partida do ente querido que está prestes a morrer. Devemos trabalhar com a família a elaboração de seu luto; as suas dificuldades, os sofrimentos do sujeito, seus desejos, as formas de buscar a tranquilidade em si.
Em seu texto Luto e Melancolia, Freud (1915), aponta a diferença e os caminhos de estar em luto ou em estado de melancolia.
O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuam uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após um lapso de tempo do inconsciente, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência de medicamentos em relação a ele.
Podemos perceber alguns traços mentais presentes no luto e na melancolia: o sujeito perde a capacidade de amar, perde total interesse pelo mundo externo, perde a vontade de qualquer atividade de sua vida, diminuição da auto-estima a ponto de encontrar a expressão em auto-recriminação e auto-envelhecimento sempre acompanhado de pensamentos de punição. Lembrando que todos estes sintomas estão presentes nas duas, mas que, apenas uma está ausente no luto que é a perturbação da auto-estima.
Roudinesco (1998), nos fala da diferenciação entre o luto e a melancolia.
Enquanto o sujeito, no trabalho do luto, consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia, ao contrário, ele se supõe culpado pela morte ocorrida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. Em suma, o eu se identifica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.
Como vimos, Freud caracteriza o luto como a perda de um elo significativo entre o sujeito e seu objeto amado, portanto, um fenômeno mental e natural do processo de desenvolvimento humano. O sujeito necessariamente não precisa perder um ente querido, pode perder o objeto de seu desejo, tais perdas podem ser simbólicas ou reais.
Há casos de luto em que o sujeito passa a sofrer muito, pois, de alguma forma o desejo da morte do outro partiu de si mesmo.
Quando acontece tal fato seja a morte ou o desaparecimento, o sujeito se reprime manifestando um luto, recriminando-se, culpando-se incansavelmente pela perda ou morte, pela qual seu desejo foi direcionado seja consciente ou inconscientemente.
Freud (1915), como se nota o luto é um processo lento e doloroso, que tem como característica uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor.
Sabemos que o luto normal supera todas as expectativas de perda, o sujeito ao se deparar com situações relacionadas às lembranças de convivência coma àquela pessoa falecida, ou objeto perdido, se defrontam com a dura realidade de não estarem mais presentes em suas vidas. Sendo assim percebe-se que o objeto já não existe mais, na melancolia este objeto é introjetado. Através desta percepção há uma reação com a questão da perda, do desaparecimento que partilha de tal destino.
No luto necessita-se de mais tempo para que o sujeito passe pela aceitação da realidade da perda. Somente o tempo do sujeito irá sanar tal perda, através do tempo o ego consegue libertar sua libido do objeto perdido, direcionando sua libido para outro objeto de amor.
A morte está presente na vida de todos, para alguns mais cedo, para outros, de modo muito trágico, e para os privilegiados, de forma a corresponder com os grandes ciclos naturais da vida. O fato é que a morte interrompe um processo, modificando as possibilidades e os rumos dos envolvidos. Sabemos que a morte faz parte da vida, mas muitas vezes as pessoas negam, talvez pelo medo, talvez por estarem ocupados demais tentando sobreviver. Quando entendemos a morte como a outra face da vida, esta toma um novo sentido. Podemos efetivamente viver  e não somente sobreviver.
Geralmente a morte, principalmente de pessoas queridas, nos tira de nossa rotina de uma forma mais ou menos intensa, provocando questionamentos sobre a vida, principalmente sobre aquelas questões que adiamos a resolução.
A morte nos lembra de que tudo passa e que nada é para sempre, nos dá uma noção real de que o tempo anda, e não espera. É que a vida é passageira e que tudo que se inicia em certa vez terá seu fim. FIM!


REFERENCIAS

FREUD, S. A dinâmica da transferência. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.

FREUD, S. Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.

FREUD, S. Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.

FOCHESSATO, Waleska Pessato Farenzena. A Cura Pela Fala. Estudos de psicanálise. Belo Horizonte, 2011. Disponível em: http//www.cbp.org.br/curapelafala36.pdf acesso em 06/12/2014.

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michael. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Editor Jorge Zahar, 1998.