O Coração Delator e o Saber da Loucura
Por Eduardo Lucas
Andrade,
membro ativo e
fundador do Fatias de Análise.
Em
tempo de delação premiada aprofundei-me apostando
nas palavras. Delatar; é verbo, movimento que toca no exercício de uma
revelação pelas palavras. Delatar é denunciar alguém por sua culpabilidade,
revelar delitos tocando em evidências nem sempre certas, as evidências são sem
garantias, Delatar é dar possibilidade para o entendimento de algo. Desdobrando
o latim, o berço da palavra, delatar é dar forma ao crime oculto. A ética da
psicanálise está na consequência e no desejo, não no ser o bonzinho ou no gozo.
Bem dizer para o gozo conceder ao desejo, amor em palavras. A responsabilidade
na delação passa pelo Outro, mas é de quem diz.
Ainda
não recuando fronte às dobradiças, significados e homofonias das palavras, pois
as palavras do inconsciente é aquilo diante do qual nenhum psicanalista deve
recuar, provoco uma possível descrição para a palavra “premiada”. Aquele que
ganha prêmio, compensação. Em análise estes significantes são singulares. Na
delação cada um paga e ganha a seu modo de dizer.
Mas
aqui não abordarei a delação premiada vista nas manchetes de TV. Conforme vemos
no título deste trabalho, o coração é que será o nosso delator, inclusive sobre
o saber da loucura. O que esta sutileza nos diz da psicopatologia e clínica da
vida cotidiana?
Se
procurarem no fálico amigo Google, verão que coração delator é um título de um
dos fantásticos escritos de Edgar Allan Poe. Neste conto temos a delação sobre
a loucura de si mesmo. Um sujeito lidando, organizando aos moldes do delírio,
com as consequências de seus atos. Começa assim:
“É
verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que
você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os
destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da
audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno.
Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com
que calma, posso lhe contar toda a história.” (Allan Poe)
O
fantástico conto de Edgar Allan Poe é uma amostra do saber da loucura e da
necessidade da escuta. Seu crime? Matar um senhor idoso para anular o invasivo
olho de abutre. Não desejava ouro, não odiava o senhor idoso. Estava era
perseguido pelo olho de abutre, vendo-se através deste seu lugar de dejeto. O
corpo humano recortado o persegue.
“Agora
esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas
deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que
precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca
fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo... Aha!
Teria um louco sido assim tão esperto?” (Allan Poe)
O
homem louco nada sabe, pois anterior a este há uma história de vida, um modo
descoberto e encoberto de ser. É este, o ser de história de vida, que fala pela
loucura. A dobradiça rangia. E segue dizendo:
“O
ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha
mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes,
de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar
que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de
meus atos ou pensamentos secretos.” (Allan Poe)
Por
falar em suspeitar dos pensamentos secretos, ouso-me a dizer que o pensamento
secreto de muitos de vocês neste instante é o de julgar, de uma forma ou outra,
o crime deste sofrido sujeito do conto fantástico. Pondero, espero que eu
esteja errado, mas se assim for, mudemos a escuta. Não nos cabe julgamento.
Na
clínica psicanalítica o que cada um leva e eleva é a delação premiada do crime
próprio. São sonhos proibidos, desejos recalcados, atos fora do controle
superegóico, sintomas insanos, sexualidade insuportável. Em suma, o que se leva
na clínica são as consequências do irrealizável que faz balizas nos deslizes
das palavras, corpo e ato. É a delação do coração, o saber sobre a própria
loucura. Julgar? Não, pois julgar é a corrupção da escuta e do compromisso com
a palavra que vivifica o desejo. Se há consequência, há lugar de sujeito e
deverá haver lugar de responsabilidade. Fale! Responder o crime do sintoma com
palavras é diferente de ser punido pelas coisas do desejo. Na clínica isto deve
ficar claro.
De
louco, todo mundo sabe pouco. Não “um” pouco, pois este nos daria uma
quantidade para assumirmos no saber do outro. É pouco, não sabemos, se não
ouvirmos, e ouvindo, quem saberá é ele, eis ai a premiação da delação sobre o
crime individual. Ser causa de desejo é fazer falar o sintoma.
Quantos
de nós, aqui presente, esquece palavras na ponta da língua, pensa coisa
proibida, reclama satisfação por todos poros, confere se já fechou a porta, tem
dificuldade para dormir, culpa o outro e faz esquisitices? Quantos de nós damos
nomes aos próprios sintomas? Quantos de nós, aqui presente, temos desejos
sexuais que não pode ser falado quiçá realizado? Quantos de nós gostamos de
besteiras? Quantos de nós sofremos de dúvida? Quantos sofremos por amor?
A
estas questões, ainda que feitas no plural, cada um respondeu por si, assim
sendo não sabemos da loucura do outro, nossa delação é das coisas do
inconsciente. Para a consciência louco é o Outro, para o inconsciente é Outro
quem nos salva da loucura.
O
certo ao inconsciente é escrito por linhas tortas. Somos supostos saberes da
loucura cotidiana e da loucura estrutural. Não recuar não significa saber pelo
outro, não significa ser hipócrita profissional, não significa julgar,
significa em primeira instância, escutar. Por detrás do crime neurótico, do
crime psicótico, um sofrimento. Na chegada lei, o personagem fabuloso de Poe,
diz:
“—
eles suspeitavam! — eles sabiam! - Eles estavam zombando do meu horror! — Assim
pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia!
Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia
suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar
ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais
alto! — Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem
as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!” (Allan Poe)
Gritar ou morrer. Forte isso. Antes
ele havia dito:
“E
agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava
de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído
baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão.”
(Allan Poe)
É
hora de terminar a parcela de felicidade do interminável, por isto faço das
loucas palavras de Allan Poe, as minhas: “quando o sino deu as horas, houve uma
batida à porta. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a
temer?” Obrigado!
*Trabalho
apresentado como desassossego no V Seminário de Psicanálise de Bom Despacho, De
Mulher, Criança e Louco Todo Mundo Sabe Pouco.

Nenhum comentário:
Postar um comentário