O QUE SE ENSINA DA PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE?
Por Eduardo Lucas
Andrade, Psicanalista, Fatias de Análise.
"Trabalho
apresentado na Estação Junho da Aleph Escola de Psicanálise - BH"
No começo era o desejo clínico. Agradeço a acolhida do
mal estar feita pela escola. É preciso falar do que faz, propôs Lacan,
"sem hipocrisia" tece Ferenczi.
Partirei daquilo que as histéricas ensinaram à Freud: o
saber é dissolúvel. A psicanálise interveio no saber do mestre, desassossegou o
acúmulo do saber, inseriu uma “ferida narcísica” nas universidades e fez furo
no discurso universal. Os analistas desassossegam a inércia universitária.
A questão deixada por Freud “deve a psicanálise ser
ensinada na universidade?” tornou-se uma realidade familiarmente estranha no
Belo Horizonte de nossa época. Unheimlich do saber.
Freud escreveu o texto “Deve a psicanálise ser ensinada
na universidade?” ao que tudo indica, em 1918, texto perdido em sua
originalidade alemã, quase foracluido, porém, foi salvo pela tradução ao
Húngaro feita por Sándor Ferenczi, psicanalista, este, que, ao que os registros
indicam, foi o pioneiro nos ensinos de algo da psicanálise na universidade.
Sabe-se pela história da psicanálise que Ferenczi lecionou na universidade de
Budapeste em 1919, curiosamente logo após traduzir e salvar o texto freudiano.
Mas o que Ferenczi ensinava? No
mínimo, uma aposta na elasticidade.
Ferenczi entrou na universidade para lecionar psicanálise
nos cursos de medicina. Os estudantes estavam agitados, tinham sede de saber,
mas não sabiam que a análise era leiga.
Em um princípio de saber, eram simbióticas, de inicio, as
relações entre medicina e psicanálise até que aos poucos estas vivenciaram uma
“Confusão de Línguas”. Foi lá nos restos abandonados pela medicina que Freud
encontrou as histéricas e o enigma posto em cena pelo inconsciente – como outra
cena-, e foi lá também que Freud começou a abandonar a lógica médica pautada no
universal proposto pela ciência e a instituir a de um tratamento singular, do
caso a caso.
Abandonou a lógica médica para renovar o tratamento.
Inaugurou-se uma aposta, um novo discurso completamente inédito na civilização,
hoje chamado de psicanálise.
Naquela época, eram os médicos, predominantemente, que
praticavam a psicanálise. Nos congressos, os curiosos também eram médicos.
Porém, nos desdobramentos da construção analítica, o saber psicanalítico foi se
afastando do saber médico. Aprendemos do trabalho freudiano sobre a análise
leiga que a formação e a prática da psicanálise não deveria e não deve ser algo
privativo aos médicos e a nenhuma outra classe profissional específica.
Freud, na medida em que avançava com a psicanálise, em
suas conferências, denunciava o saber médico, afirmando que este dava muitos
nomes, pouca escuta e não se comprometiam com a causa, e sim com a eliminação
da crosta do sintoma que organizava o sujeito. A pulsão de morte veio para
consagrar esta ruptura dos saberes. Mas, ainda hoje, de forma recíproca, estes
saberes se bisbilhotam e se entrecruzam.
Da medicina, psicologia e além: a psicanálise ao
afastar-se das garantias das titulações acadêmico-profissionais teve de
situar-se como campo único cujo um dos objetos é o singular pautado numa escuta
ética. Para tal, Freud construiu uma metapsicologia que pela sua dimensão
clínica convocou os olhares da psicologia.
Não por acaso, Freud, no texto O Inconsciente de 1915,
trabalha a distinção da técnica e objeto de trabalho entre estes dois saberes,
psicanálise e psicologia, e mais adiante, nas recomendações, escreve sobre o
apressar da clínica analítica, onde afirma que a psicanálise, por tratar o
material inconsciente não poderia dar-se o luxo psicológico de ser breve,
tampouco de ser rasante nas intervenções.
Este “meta”, “além”, mostra-nos que a psicanálise tem
algo que a psicologia não tem e que interessa a ela. Há distinções anatômicas
entre os psis.
Tenho chamado a psicanálise até aqui de “saber”, não foi
por um acaso sem causa, foi justamente para mostrar-lhes como a psicanálise era
vista. A psicanálise vista como um saber. Sabemos que não é bem assim, mas será
que as universidades, a medicina e a psicologia sabem? Será que sabem que a
psicanálise é um discurso ético, uma forma de laço social radicalmente
diferente de todos os outros?
Há um interesse psicanalítico por certos segmentos da
psicologia. Logo, se a psicanálise é vista com interesse por segmentos da
psicologia e se é vista como um saber por estes, nada mais viável, aos olhos
destes segmentos da psicologia, do que usar as contribuições da psicanálise
para se pensar a clínica psicológica. Muitas vezes, nos cursos de psicologia
fala-se da psicanálise (teoria em sua face descritiva) como se dissessem da
própria psicologia.
O que lhes interessam, na verdade, não é a psicanálise
pura orientada pelo passe, mas sim uma aplicabilidade da escuta clínica tendo
como objetivo seus efeitos terapêuticos. Nas universidades não compreenderam
que o futuro é o de uma ilusão e que quando o estudante dali sair, senão tiver
tratado as questões postas em manifestação pelo próprio inconsciente, este,
ficará à deriva e desamparado com a prática clínica.
Então, o que se ensina da psicanálise na universidade? Em
especial, nos cursos de psicologia?! Reparem que o que indago é o que se ensina
e não o que se transmite, nem sei se é possível dizermos de uma transmissão
aqui. E ainda assim pondero que o ensino da psicanálise, como tal, na
universidade, não existe! A palavra condena. Universidade é algo universal,
inapropriado para aprender psicanálise. Psicanálise é algo que não se aprende,
se experimenta.
Sua majestade, o conhecimento: na universidade o que
conta é o jogo de conhecimentos, teorias e técnicas bem como sua acumulação,
não se fala da autorização como analista e tampouco da análise dos sujeitos –
futuros praticantes. Lá a autorização é dada pelo selo do MEC e o sintoma, bem
como o desejo de escuta tendem a permanecer obscuros.
Não se preocupam com o lugar central do inconsciente.
Fazem uso de Lacan pelas avessas. Um sutil perigo e sabemos o quanto as
sutilezas são levadas a sério na psicanálise. Algo da identificação com os
professores, talvez, cópia de estilos. Lembro-me aqui que Freud em uma de suas
conferências fala da formação do superego em identificação com o superego do
adulto, é por ai também a formação do superego dos nossos estudantes de
psicologia fronte aos seus professores.
O que um psicanalista pode ensinar na universidade? Aqui
temos uma distinção a ser pensada, uma coisa é a universidade e outra são os
professores que se intitulam psicanalistas (pondero que psicanalista nunca deve
ganhar um adjetivo, por ser semblante do objeto a . É preciso deixar sempre
aberta a questão “O que é um analista?”). Porque muitos, se não a maioria, dos
meus professores de psicologia foram e ou são psicanalistas? E ainda, qual o
interesse da psicanálise com o seu ensino na universidade? Esta segunda é uma
pergunta que o próprio Freud fez.
Estou pensando aqui que antes de serem professores eles
são psicanalistas. Caso contrário, poderíamos perguntar o interesse do
professor universitário em ser psicanalista, e não o inverso, o interesse do
psicanalista em ser professor universitário, e a resposta seria algo do tipo, o
interesse é devido a terem, na psicanálise, mais suporte para explicar sobre o
tratamento do Real que a psicologia não alcança.
Mas, voltemos ao interesse da psicanálise e do
psicanalista que leva a psicanálise para a universidade, seria, pergunto, para
construção já que ali atravessa algo da clínica? Mas que tipo de construção
seria esta? Ou seria uma oportunidade de provocar desejos e desassossegar algo
estando lá dentro? Parece-me que não, a psicanálise na universidade,
infelizmente, na sua maioria, está lá para levar um sossego aos professores e
segurança aos alunos. Jogando com um título de Freud, digo que aqui temos o
problema econômico do “universitarismo”, ausência da causa de desejo, entrega
capitalista.
A psicanálise em seu avesso? Não me assusta, o discurso
de lá é o do mestre. A minha esperança é que o professor faça a diferença e
fira o narcisismo universitário que carrega em seu bolso um saber
prêt-à-porter.
Alguns de vocês podem estar me indagando em fantasias de
várias formas, ou vocês mesmos lecionam em universidade e tenderão a se
defenderem. Esperado! O que aqui trago atravessa o momento atual e por isto é
necessário e legítimo de ser levantado em palavras, tal como o inconsciente de
1915 teve de ser trabalhado por Freud.
Mas, concordo se estiverem pensando se não teria
realmente um ganho à psicanálise quando ela é ensinada?! Sim, creio nisso. Mas
dependerá do profissional que leva a psicanálise e como ele a aplica. Não quero
trazer questões fechadas, pelo contrário, são apenas desassossegos para
provocar novas formas de pensar, bom seria se eu dissesse isto dentro da
universidade. Lembraria inclusive
as apresentações de Freud que falava no campo de combate. Então, estando eu
falando em uma Escola de psicanálise, reviro a questão; quais os efeitos
daquilo que se ensina da psicanálise nas universidades batem nas portas das
Escolas de psicanálise? Nos cartéis e em seus dispositivos? O desejo move e as
buscas da formação de muitos recairão por aqui.
Os efeitos, de uma forma ou outra também recaem aqui,
esta minha apresentação é uma prova disto. Vale pensarmos com o que fazemos com
as consequências, com os restos quase sintomáticos, daquele que deseja
salvar-se a si mesmo numa formação ética e técnica de cunho permanente.
Ora, não há que eu tenha conhecimento, um curso de
psicologia que não diga da psicanálise, que não a utilize como referencial
teórico. Hoje, no Brasil, não se estuda psicologia sem se ouvir psicanálise, a
literatura psicanalítica dominou o currículo do curso de psicologia de onde
vim, mas vem perdendo forças. Assim sendo, vale pensarmos, o que podemos
extrair disto para a clínica e para a própria psicanálise? Qual saber fazer é
possível aqui?
Por experiência digo, numa universidade, em cursos de
psicologia, geralmente é ensinada a existência da psicanálise como uma teoria
da personalidade que considera o inconsciente e pulsões, mas não se ensina as
pulsões. É ensinada rapidamente sua importância no desenvolvimento da
civilização, na clínica de tratamento humano e nos diálogos diversos, algo bem
superficial. Abordam brevemente a lógica analítica, falam das raízes que a
psicanálise buscou na filosofia e elogiam ou criticam as contribuições de Freud
e de Lacan.
A psicanálise ali é uma disciplina curricular, um saber a
ser adquirido sem análise e experiência própria, não é ética e de certa forma
pode tornar-se instrumento de escuta. Preocupa-me pensar até onde avança esta
clínica. Sei que é do um a um, tanto do lado do paciente quanto do lado do
analista e ou psicólogo. Acho que eu situaria esta clínica entre a psicologia e
a psicanálise propriamente dita, um avanço fronte a psicologia e um breve
retrocesso ante a psicanálise. Refiro-me ao tocante da leitura que se faz do
inconsciente na clínica.
“O que é trabalhado na estrutura curricular?”, “como
falar da psicanálise na universidade?” são questões que ouvi de professores
universitários encarregados a apresentarem a psicanálise a seus estudantes.
Dificuldades que me fazem pensar como se forma um psicanalista. Esta é a outra
face da conversa que não desejo estender aqui, pois esta é a face que não se
ensina na universidade. Aqui estou abordando o que se ensina da psicanálise na
universidade e isso não se ensina, o tornar-se analista – que é produzido via
atravessamento dos fantasmas no tratamento analítico. Psicanálise é impossível,
o que perpassa o seu ensino também, já apontava Freud em outros tempos.
Eis a psicopatologia do ensino cotidiano, quais os seus
lapsos e como escutá-los? É como se a psicanálise na universidade fosse um ato
falho do ensino que precisa ser escutado a fundo. Na universidade estamos na
psicologia de grupo com pouca “análise do eu”, velando e abolindo as
manifestações do inconsciente.
Quanto à identificação com o superego do professor,
resgato a proposta freudiana, como pode o aluno herdar isso para fazê-lo teu?
Penso ainda que ocorra uma divisão do ego do aluno como processo de defesa na
construção teórica clínica. A psicanálise como escolha por ter alguém que
ampara no ensino, em outros momentos inclinam-se a identificação com outros
professores do curso. Como pode o estudante salvar-se a si mesmo como desejo de
analista em meio a esta divisão senão buscando espaço para o seu desejo fora da
universidade?
O grito do sonho “Pai não vês que estou queimando?”, bate
nas portas da Escola. Não poderíamos olhar este entrave também como algo que
promova, ainda que em perigo, uma “elasticidade da técnica”, por conseguinte,
da ética no constante exercício de tornar-se psicanalista? Agora é conosco, o
que fazer disto que está posto?! Viva o desassossego e obrigado!




