terça-feira, 23 de junho de 2015

REPETIÇÕES EM ANÁLISE: NOTAS CLÍNICAS

Por Eduardo Lucas Andrade



            A repetição acompanha a psicanálise desde os seus primeiros passos. Mas assim como a própria repetição, o conceito repete, mas não o mesmo, avança. A repetição será nossa Gradiva, isto é, aquela que avança de forma sublime e enigmática.
            A repetição já estava na língua dos poetas e dos filósofos, no cotidiano de quem vivia antecedente à Freud. O mito de Sísifo de Albert Camus pode ser lido como a tragédia da repetição. Porém, dar a ela um estatuto clínico de tratamento subjetivo, foi mais uma das inaugurações freudianas.
            Acompanhando o Caso Dora, Freud encontra para além das reminiscências, a transferência e nela a repetição. Logo, a repetição, desde o começo da psicanálise já se ajustava a uma posição clínica.
            Abordarei este escrito entrelaçando os avanços da noção de repetição em psicanálise á recortes de um caso clínico - chamarei aqui a paciente de Éris, deusa da dúvida. Devo destacar que o primeiro nome do analista é o mesmo do seu deslaço com o ente amado, responsável pela relação impossível de seu desejo, demanda de análise.
            Foi com as histéricas que Freud descobriu ao ser mandado calar-se, a Associação Livre. A repetição participa da associação livre como elemento limítrofe entre resistência e transferência. Éris utiliza de repetições para suportar uma sequência de fala. Associa livremente até certo ponto, este é o ponto da repetição que marca local de gozo por onde passa o sintoma. Necessita por vezes que o analista apenas repita algum de seus significantes para que volte a associar livremente.
            Freud na Carta 84 nos mostra a Repetição como produção de sonhos, manifestação do inconsciente e realização de desejos. Vemos aqui a repetição como um obscuro singular interpretável. Nesta lógica Éris coloca em cena, em suas seções – tanto no sonho, quanto na dúvida e na dualidade do desejo - um “voltei mar” e ou “vou teimar”. Palavras estas que dizem de um particular estatuto de repetição, relatando sobre os íntimos do desejo, que a repetição na clínica transparece como presença de história de vida.
            Ao estabelecer a noção de lembranças encobridoras Freud coloca o fantasma psíquico nas artimanhas inconsciente da repetição. Éris ao repetir, ao falar, remonta com tramites inconscientes, discursos para lidar e avançar em sua história. Éris que conta a história, a repete sempre com algo novo, seus relatos dos sonhos são assim.
            A realidade a ser escutada pela psicanálise passou a ser a verdade do sujeito, uma realidade psíquica, que se repetia naquilo que era dito, manifesto e representado. Éris repete em representações modos distintos de pagar as seções, repetindo dívidas da vida.
            Os sonhos são segundo Freud “uma repetição de impressão” (Freud, 1900), no sentido duplo da palavra. Impressão de percepção e de imprimir algo, inscrever letras no branco. Éris leva à análise sonhos que sem perceber repete fragmentos de seus dias, de sua demanda, e organiza-os em modo alucinado e obsessivo.
            Sobre os Chistes Freud nos diz que ele é em sua repetição “o peculiar prazer da criança” (Freud, 1905). Diz ele que é uma “repetição do que é similar, de uma redescoberta do que é familiar... Insuspeita economia das defesas psíquicas” (Freud, 1905) Os chistes de Éris recaíram como uma luva em suas dúvidas. “Minha doença é a dúvida”, diz belamente em análise.
            Em “As sutilezas do Ato Falho” Freud relata uma tentativa de fuga da repetição que termina, pegando o sujeito de surpresa, em uma repetição. Éris ao relatar a semana santa, diz que separou as santidades, mas não conseguiu promover a união, faltando da procissão e se sacando no que disse com uma simples pontuação do analista. Os significantes que se repetem são gatilhos para os avanços em análise.
            Sobre as inibições elas tendem a levar o sujeito “à repetição e ao desperdício do tempo” (Freud, 1925). Éris repete inibições, repete discursos sobre um não poder, afastando-se da sexualidade, perdendo tempo em seção, ainda que no momento lógico do corte se pega no quase nada disse tendo muito a dizer. No caso de Éris vale lembrar que na escrita de Freud a inibição “é contra a repetição do encontro” (Freud, 1925).
            Com o advento teórico da pulsão de morte em “Além do Princípio de Prazer”, a repetição deixa de ser algo por excelência do prazer, mantendo-se na economia e desdobrando-se do lugar de retorno do recalcado como forma para lidar com o traumático, para aparecer na escuta clínica como tendência pulsional. Ali Freud depara frontalmente com a compulsão à repetição. O sujeito é capaz de provocar em si um desprazer para poder obter o prazer. Esta repetição evidencia “a reexperiência de algo idêntico (...) geradora de prazer” (Freud, 1923).
            Ao inaudível som das pulsões repetimos nossos fantasmas em silêncios e isto “nos encaminha ao fatídico e ao inescapável, fora de análise chamaríamos de sorte” (Freud, 1919) É preciso que coloquemos Éris a falar, em busca do seu lugar de sujeito.
            Se “o encontro, é na verdade um reencontro” conforme postula Freud, podemos então pensar na repetição como sendo um arranjo psíquico para que o sujeito lide a seu modo, sem regra de ouro, com a falta.
            Lacan, após colocar a repetição entre os quatros conceitos bases da psicanálise, avança na noção de repetição trazendo à psicanálise; Tiquê e Autômaton. Tiquê se aproxima do real, na medida em que não engana e emerge-se como um ‘acaso com causa’, perfurando Autômaton. A Autômaton recobre a ação da Tiquê pelo mecanismo do automatismo, um automatismo de repetição, dizia Lacan.
            A quebra da repetição promove o estranho; “hoje você está estranho”. “Estranho?! Como assim?” “Não sei, você está diferente”. Eis, construções de novos caminhos, ainda que familiares.
            No meio destes caminhos, há uma clínica. A repetição na medida em que ela se mostra ela vela. Tenho visto isto na clínica, com Éris, que ao persistir a repetição, o sujeito deverá ser consultado, mas onde na repetição está o sujeito a ser consultado? Éris, a deusa da dúvida, persiste por aqui.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, S. (2006). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago.
(1900) “A Interpretação dos Sonhos (II)”, v. V.
(1901) “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”, v. VI.
(1905) “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”, v. VIII.
(1906) “‘Gradiva’ de Jensen”, v. IX.
(1914). "Recordar, repetir e elaborar", v. XII.
(1915) “Artigos sobre a Metapsicologia”, v. XIV.
(1920). "Além do princípio do prazer", v. XVIII.
(1925) “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, v. XX
LACAN, J. (1988). O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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