REPETIÇÕES EM ANÁLISE: NOTAS CLÍNICAS
Por Eduardo Lucas Andrade
A
repetição acompanha a psicanálise desde os seus primeiros passos. Mas assim
como a própria repetição, o conceito repete, mas
não o mesmo, avança. A repetição será nossa Gradiva, isto é, aquela que avança
de forma sublime e enigmática.
A
repetição já estava na língua dos poetas e dos filósofos, no cotidiano de quem
vivia antecedente à Freud. O mito de Sísifo de Albert Camus pode ser lido como
a tragédia da repetição. Porém, dar a ela um estatuto clínico de tratamento
subjetivo, foi mais uma das inaugurações freudianas.
Acompanhando
o Caso Dora, Freud encontra para além das reminiscências, a transferência e
nela a repetição. Logo, a repetição, desde o começo da psicanálise já se
ajustava a uma posição clínica.
Abordarei
este escrito entrelaçando os avanços da noção de repetição em psicanálise á
recortes de um caso clínico - chamarei aqui a paciente de Éris, deusa da
dúvida. Devo destacar que o primeiro nome do analista é o mesmo do seu deslaço
com o ente amado, responsável pela relação impossível de seu desejo, demanda de
análise.
Foi
com as histéricas que Freud descobriu ao ser mandado calar-se, a Associação
Livre. A repetição participa da associação livre como elemento limítrofe entre
resistência e transferência. Éris utiliza de repetições para suportar uma
sequência de fala. Associa livremente até certo ponto, este é o ponto da
repetição que marca local de gozo por onde passa o sintoma. Necessita por vezes
que o analista apenas repita algum de seus significantes para que volte a
associar livremente.
Freud
na Carta 84 nos mostra a Repetição como produção de sonhos, manifestação do
inconsciente e realização de desejos. Vemos aqui a repetição como um obscuro
singular interpretável. Nesta lógica Éris coloca em cena, em suas seções –
tanto no sonho, quanto na dúvida e na dualidade do desejo - um “voltei mar” e
ou “vou teimar”. Palavras estas que dizem de um particular estatuto de
repetição, relatando sobre os íntimos do desejo, que a repetição na clínica
transparece como presença de história de vida.
Ao
estabelecer a noção de lembranças encobridoras Freud coloca o fantasma psíquico
nas artimanhas inconsciente da repetição. Éris ao repetir, ao falar, remonta
com tramites inconscientes, discursos para lidar e avançar em sua história.
Éris que conta a história, a repete sempre com algo novo, seus relatos dos
sonhos são assim.
A
realidade a ser escutada pela psicanálise passou a ser a verdade do sujeito,
uma realidade psíquica, que se repetia naquilo que era dito, manifesto e
representado. Éris repete em representações modos distintos de pagar as seções,
repetindo dívidas da vida.
Os
sonhos são segundo Freud “uma repetição de impressão” (Freud, 1900), no sentido
duplo da palavra. Impressão de percepção e de imprimir algo, inscrever letras
no branco. Éris leva à análise sonhos que sem perceber repete fragmentos de
seus dias, de sua demanda, e organiza-os em modo alucinado e obsessivo.
Sobre
os Chistes Freud nos diz que ele é em sua repetição “o peculiar prazer da
criança” (Freud, 1905). Diz ele que é uma “repetição do que é similar, de uma
redescoberta do que é familiar... Insuspeita economia das defesas psíquicas”
(Freud, 1905) Os chistes de Éris recaíram como uma luva em suas dúvidas. “Minha
doença é a dúvida”, diz belamente em análise.
Em
“As sutilezas do Ato Falho” Freud relata uma tentativa de fuga da repetição que
termina, pegando o sujeito de surpresa, em uma repetição. Éris ao relatar a
semana santa, diz que separou as santidades, mas não conseguiu promover a
união, faltando da procissão e se sacando no que disse com uma simples
pontuação do analista. Os significantes que se repetem são gatilhos para os
avanços em análise.
Sobre
as inibições elas tendem a levar o sujeito “à repetição e ao desperdício do
tempo” (Freud, 1925). Éris repete inibições, repete discursos sobre um não
poder, afastando-se da sexualidade, perdendo tempo em seção, ainda que no
momento lógico do corte se pega no quase nada disse tendo muito a dizer. No
caso de Éris vale lembrar que na escrita de Freud a inibição “é contra a
repetição do encontro” (Freud, 1925).
Com
o advento teórico da pulsão de morte em “Além do Princípio de Prazer”, a
repetição deixa de ser algo por excelência do prazer, mantendo-se na economia e
desdobrando-se do lugar de retorno do recalcado como forma para lidar com o
traumático, para aparecer na escuta clínica como tendência pulsional. Ali Freud
depara frontalmente com a compulsão à repetição. O sujeito é capaz de provocar
em si um desprazer para poder obter o prazer. Esta repetição evidencia “a
reexperiência de algo idêntico (...) geradora de prazer” (Freud, 1923).
Ao
inaudível som das pulsões repetimos nossos fantasmas em silêncios e isto “nos
encaminha ao fatídico e ao inescapável, fora de análise chamaríamos de sorte”
(Freud, 1919) É preciso que coloquemos Éris a falar, em busca do seu lugar de
sujeito.
Se
“o encontro, é na verdade um reencontro” conforme postula Freud, podemos então
pensar na repetição como sendo um arranjo psíquico para que o sujeito lide a
seu modo, sem regra de ouro, com a falta.
Lacan,
após colocar a repetição entre os quatros conceitos bases da psicanálise,
avança na noção de repetição trazendo à psicanálise; Tiquê e Autômaton. Tiquê
se aproxima do real, na medida em que não engana e emerge-se como um ‘acaso com
causa’, perfurando Autômaton. A Autômaton recobre a ação da Tiquê pelo
mecanismo do automatismo, um automatismo de repetição, dizia Lacan.
A
quebra da repetição promove o estranho; “hoje você está estranho”. “Estranho?!
Como assim?” “Não sei, você está diferente”. Eis, construções de novos
caminhos, ainda que familiares.
No
meio destes caminhos, há uma clínica. A repetição na medida em que ela se
mostra ela vela. Tenho visto isto na clínica, com Éris, que ao persistir a
repetição, o sujeito deverá ser consultado, mas onde na repetição está o
sujeito a ser consultado? Éris, a deusa da dúvida, persiste por aqui.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD,
S. (2006). Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago.
(1900) “A Interpretação dos Sonhos (II)”, v. V.
(1901) “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”, v. VI.
(1905) “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”, v. VIII.
(1906) “‘Gradiva’ de Jensen”, v. IX.
(1914). "Recordar, repetir e elaborar", v. XII.
(1915) “Artigos sobre a Metapsicologia”, v. XIV.
(1920). "Além do princípio do prazer", v. XVIII.
(1925) “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, v. XX
LACAN, J. (1988). O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
(1900) “A Interpretação dos Sonhos (II)”, v. V.
(1901) “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”, v. VI.
(1905) “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”, v. VIII.
(1906) “‘Gradiva’ de Jensen”, v. IX.
(1914). "Recordar, repetir e elaborar", v. XII.
(1915) “Artigos sobre a Metapsicologia”, v. XIV.
(1920). "Além do princípio do prazer", v. XVIII.
(1925) “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, v. XX
LACAN, J. (1988). O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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