quinta-feira, 25 de junho de 2015

O QUE SE ENSINA DA PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE?

Por Eduardo Lucas Andrade, Psicanalista, Fatias de Análise.
"Trabalho apresentado na Estação Junho da Aleph Escola de Psicanálise - BH"



            No começo era o desejo clínico. Agradeço a acolhida do mal estar feita pela escola. É preciso falar do que faz, propôs Lacan, "sem hipocrisia" tece Ferenczi.
            Partirei daquilo que as histéricas ensinaram à Freud: o saber é dissolúvel. A psicanálise interveio no saber do mestre, desassossegou o acúmulo do saber, inseriu uma “ferida narcísica” nas universidades e fez furo no discurso universal. Os analistas desassossegam a inércia universitária.
            A questão deixada por Freud “deve a psicanálise ser ensinada na universidade?” tornou-se uma realidade familiarmente estranha no Belo Horizonte de nossa época. Unheimlich do saber.
            Freud escreveu o texto “Deve a psicanálise ser ensinada na universidade?” ao que tudo indica, em 1918, texto perdido em sua originalidade alemã, quase foracluido, porém, foi salvo pela tradução ao Húngaro feita por Sándor Ferenczi, psicanalista, este, que, ao que os registros indicam, foi o pioneiro nos ensinos de algo da psicanálise na universidade. Sabe-se pela história da psicanálise que Ferenczi lecionou na universidade de Budapeste em 1919, curiosamente logo após traduzir e salvar o texto freudiano. Mas o que         Ferenczi ensinava? No mínimo, uma aposta na elasticidade.
            Ferenczi entrou na universidade para lecionar psicanálise nos cursos de medicina. Os estudantes estavam agitados, tinham sede de saber, mas não sabiam que a análise era leiga.
            Em um princípio de saber, eram simbióticas, de inicio, as relações entre medicina e psicanálise até que aos poucos estas vivenciaram uma “Confusão de Línguas”. Foi lá nos restos abandonados pela medicina que Freud encontrou as histéricas e o enigma posto em cena pelo inconsciente – como outra cena-, e foi lá também que Freud começou a abandonar a lógica médica pautada no universal proposto pela ciência e a instituir a de um tratamento singular, do caso a caso.
            Abandonou a lógica médica para renovar o tratamento. Inaugurou-se uma aposta, um novo discurso completamente inédito na civilização, hoje chamado de psicanálise.
            Naquela época, eram os médicos, predominantemente, que praticavam a psicanálise. Nos congressos, os curiosos também eram médicos. Porém, nos desdobramentos da construção analítica, o saber psicanalítico foi se afastando do saber médico. Aprendemos do trabalho freudiano sobre a análise leiga que a formação e a prática da psicanálise não deveria e não deve ser algo privativo aos médicos e a nenhuma outra classe profissional específica.
            Freud, na medida em que avançava com a psicanálise, em suas conferências, denunciava o saber médico, afirmando que este dava muitos nomes, pouca escuta e não se comprometiam com a causa, e sim com a eliminação da crosta do sintoma que organizava o sujeito. A pulsão de morte veio para consagrar esta ruptura dos saberes. Mas, ainda hoje, de forma recíproca, estes saberes se bisbilhotam e se entrecruzam.
            Da medicina, psicologia e além: a psicanálise ao afastar-se das garantias das titulações acadêmico-profissionais teve de situar-se como campo único cujo um dos objetos é o singular pautado numa escuta ética. Para tal, Freud construiu uma metapsicologia que pela sua dimensão clínica convocou os olhares da psicologia.
            Não por acaso, Freud, no texto O Inconsciente de 1915, trabalha a distinção da técnica e objeto de trabalho entre estes dois saberes, psicanálise e psicologia, e mais adiante, nas recomendações, escreve sobre o apressar da clínica analítica, onde afirma que a psicanálise, por tratar o material inconsciente não poderia dar-se o luxo psicológico de ser breve, tampouco de ser rasante nas intervenções.
            Este “meta”, “além”, mostra-nos que a psicanálise tem algo que a psicologia não tem e que interessa a ela. Há distinções anatômicas entre os psis.
            Tenho chamado a psicanálise até aqui de “saber”, não foi por um acaso sem causa, foi justamente para mostrar-lhes como a psicanálise era vista. A psicanálise vista como um saber. Sabemos que não é bem assim, mas será que as universidades, a medicina e a psicologia sabem? Será que sabem que a psicanálise é um discurso ético, uma forma de laço social radicalmente diferente de todos os outros?
            Há um interesse psicanalítico por certos segmentos da psicologia. Logo, se a psicanálise é vista com interesse por segmentos da psicologia e se é vista como um saber por estes, nada mais viável, aos olhos destes segmentos da psicologia, do que usar as contribuições da psicanálise para se pensar a clínica psicológica. Muitas vezes, nos cursos de psicologia fala-se da psicanálise (teoria em sua face descritiva) como se dissessem da própria psicologia.
            O que lhes interessam, na verdade, não é a psicanálise pura orientada pelo passe, mas sim uma aplicabilidade da escuta clínica tendo como objetivo seus efeitos terapêuticos. Nas universidades não compreenderam que o futuro é o de uma ilusão e que quando o estudante dali sair, senão tiver tratado as questões postas em manifestação pelo próprio inconsciente, este, ficará à deriva e desamparado com a prática clínica.
            Então, o que se ensina da psicanálise na universidade? Em especial, nos cursos de psicologia?! Reparem que o que indago é o que se ensina e não o que se transmite, nem sei se é possível dizermos de uma transmissão aqui. E ainda assim pondero que o ensino da psicanálise, como tal, na universidade, não existe! A palavra condena. Universidade é algo universal, inapropriado para aprender psicanálise. Psicanálise é algo que não se aprende, se experimenta.
            Sua majestade, o conhecimento: na universidade o que conta é o jogo de conhecimentos, teorias e técnicas bem como sua acumulação, não se fala da autorização como analista e tampouco da análise dos sujeitos – futuros praticantes. Lá a autorização é dada pelo selo do MEC e o sintoma, bem como o desejo de escuta tendem a permanecer obscuros.
            Não se preocupam com o lugar central do inconsciente. Fazem uso de Lacan pelas avessas. Um sutil perigo e sabemos o quanto as sutilezas são levadas a sério na psicanálise. Algo da identificação com os professores, talvez, cópia de estilos. Lembro-me aqui que Freud em uma de suas conferências fala da formação do superego em identificação com o superego do adulto, é por ai também a formação do superego dos nossos estudantes de psicologia fronte aos seus professores.
            O que um psicanalista pode ensinar na universidade? Aqui temos uma distinção a ser pensada, uma coisa é a universidade e outra são os professores que se intitulam psicanalistas (pondero que psicanalista nunca deve ganhar um adjetivo, por ser semblante do objeto a . É preciso deixar sempre aberta a questão “O que é um analista?”). Porque muitos, se não a maioria, dos meus professores de psicologia foram e ou são psicanalistas? E ainda, qual o interesse da psicanálise com o seu ensino na universidade? Esta segunda é uma pergunta que o próprio Freud fez.
            Estou pensando aqui que antes de serem professores eles são psicanalistas. Caso contrário, poderíamos perguntar o interesse do professor universitário em ser psicanalista, e não o inverso, o interesse do psicanalista em ser professor universitário, e a resposta seria algo do tipo, o interesse é devido a terem, na psicanálise, mais suporte para explicar sobre o tratamento do Real que a psicologia não alcança.
            Mas, voltemos ao interesse da psicanálise e do psicanalista que leva a psicanálise para a universidade, seria, pergunto, para construção já que ali atravessa algo da clínica? Mas que tipo de construção seria esta? Ou seria uma oportunidade de provocar desejos e desassossegar algo estando lá dentro? Parece-me que não, a psicanálise na universidade, infelizmente, na sua maioria, está lá para levar um sossego aos professores e segurança aos alunos. Jogando com um título de Freud, digo que aqui temos o problema econômico do “universitarismo”, ausência da causa de desejo, entrega capitalista.
            A psicanálise em seu avesso? Não me assusta, o discurso de lá é o do mestre. A minha esperança é que o professor faça a diferença e fira o narcisismo universitário que carrega em seu bolso um saber prêt-à-porter.
            Alguns de vocês podem estar me indagando em fantasias de várias formas, ou vocês mesmos lecionam em universidade e tenderão a se defenderem. Esperado! O que aqui trago atravessa o momento atual e por isto é necessário e legítimo de ser levantado em palavras, tal como o inconsciente de 1915 teve de ser trabalhado por Freud.
            Mas, concordo se estiverem pensando se não teria realmente um ganho à psicanálise quando ela é ensinada?! Sim, creio nisso. Mas dependerá do profissional que leva a psicanálise e como ele a aplica. Não quero trazer questões fechadas, pelo contrário, são apenas desassossegos para provocar novas formas de pensar, bom seria se eu dissesse isto dentro da universidade.            Lembraria inclusive as apresentações de Freud que falava no campo de combate. Então, estando eu falando em uma Escola de psicanálise, reviro a questão; quais os efeitos daquilo que se ensina da psicanálise nas universidades batem nas portas das Escolas de psicanálise? Nos cartéis e em seus dispositivos? O desejo move e as buscas da formação de muitos recairão por aqui.
            Os efeitos, de uma forma ou outra também recaem aqui, esta minha apresentação é uma prova disto. Vale pensarmos com o que fazemos com as consequências, com os restos quase sintomáticos, daquele que deseja salvar-se a si mesmo numa formação ética e técnica de cunho permanente.
            Ora, não há que eu tenha conhecimento, um curso de psicologia que não diga da psicanálise, que não a utilize como referencial teórico. Hoje, no Brasil, não se estuda psicologia sem se ouvir psicanálise, a literatura psicanalítica dominou o currículo do curso de psicologia de onde vim, mas vem perdendo forças. Assim sendo, vale pensarmos, o que podemos extrair disto para a clínica e para a própria psicanálise? Qual saber fazer é possível aqui?
            Por experiência digo, numa universidade, em cursos de psicologia, geralmente é ensinada a existência da psicanálise como uma teoria da personalidade que considera o inconsciente e pulsões, mas não se ensina as pulsões. É ensinada rapidamente sua importância no desenvolvimento da civilização, na clínica de tratamento humano e nos diálogos diversos, algo bem superficial. Abordam brevemente a lógica analítica, falam das raízes que a psicanálise buscou na filosofia e elogiam ou criticam as contribuições de Freud e de Lacan.
            A psicanálise ali é uma disciplina curricular, um saber a ser adquirido sem análise e experiência própria, não é ética e de certa forma pode tornar-se instrumento de escuta. Preocupa-me pensar até onde avança esta clínica. Sei que é do um a um, tanto do lado do paciente quanto do lado do analista e ou psicólogo. Acho que eu situaria esta clínica entre a psicologia e a psicanálise propriamente dita, um avanço fronte a psicologia e um breve retrocesso ante a psicanálise. Refiro-me ao tocante da leitura que se faz do inconsciente na clínica.
            “O que é trabalhado na estrutura curricular?”, “como falar da psicanálise na universidade?” são questões que ouvi de professores universitários encarregados a apresentarem a psicanálise a seus estudantes. Dificuldades que me fazem pensar como se forma um psicanalista. Esta é a outra face da conversa que não desejo estender aqui, pois esta é a face que não se ensina na universidade. Aqui estou abordando o que se ensina da psicanálise na universidade e isso não se ensina, o tornar-se analista – que é produzido via atravessamento dos fantasmas no tratamento analítico. Psicanálise é impossível, o que perpassa o seu ensino também, já apontava Freud em outros tempos.
            Eis a psicopatologia do ensino cotidiano, quais os seus lapsos e como escutá-los? É como se a psicanálise na universidade fosse um ato falho do ensino que precisa ser escutado a fundo. Na universidade estamos na psicologia de grupo com pouca “análise do eu”, velando e abolindo as manifestações do inconsciente.
            Quanto à identificação com o superego do professor, resgato a proposta freudiana, como pode o aluno herdar isso para fazê-lo teu? Penso ainda que ocorra uma divisão do ego do aluno como processo de defesa na construção teórica clínica. A psicanálise como escolha por ter alguém que ampara no ensino, em outros momentos inclinam-se a identificação com outros professores do curso. Como pode o estudante salvar-se a si mesmo como desejo de analista em meio a esta divisão senão buscando espaço para o seu desejo fora da universidade?
            O grito do sonho “Pai não vês que estou queimando?”, bate nas portas da Escola. Não poderíamos olhar este entrave também como algo que promova, ainda que em perigo, uma “elasticidade da técnica”, por conseguinte, da ética no constante exercício de tornar-se psicanalista? Agora é conosco, o que fazer disto que está posto?! Viva o desassossego e obrigado!


Nenhum comentário:

Postar um comentário