TRAÇADOS SOBRE A MORTE E A ELABORAÇÃO DO LUTO.
Por Wector Freitas
TRAÇADOS SOBRE A MORTE
Hoje se entende que o
hospital é um ambiente no qual a vida se desenrola em seu cotidiano e que o
psicanalista é um dos personagens que quase sempre estará participando dos
momentos junto aos pacientes, famílias e amigos.
Entendemos que, a atuação do
psicanalista, não se refere apenas à atenção direta ao paciente, junto às
famílias e amigos, mas sim promovendo mudanças e atividades curativas e de
prevenção ao seu sintoma. Como se vê a psicanálise no hospital é uma técnica
que se propõe a trabalhar com o sofrimento do sujeito frente a seu sintoma e
hospitalização, seu objetivo não é a cura, mas ajudar o sujeito para que ele
tome nota de seu sintoma e aprenda a lidar melhor com sua passagem pela
patologia.
A psicanálise foi criada por
Freud em um hospital, partindo das observações e escutas constituídas de seus
pacientes sobre as neuroses, desenvolveu as teorias psicanalíticas de
investigação da mente humana; seus traumas, fobias, complexos, pulsões,
conflitos e transtornos.
Assim, temos uma psicanálise,
que se constrói a cada dia uma prática, uma técnica, que possibilita o
surgimento da palavra naquele sujeito que sofre, ou seja, auxiliando no campo
para que seu quadro não evolua. É neste sentido que a psicanálise se insere lidando
diretamente com a subjetividade do sujeito, tornando-se possível um maior
suporte de suas angústias.
Freud (1915), nos fala sobre
a transferência e libido ao corpo do sujeito que padece de causas orgânicas.
“No que tange à doença
orgânica, seguirei a sugestão verbal de S. Ferenczi de que devemos levar em
conta a influência da enfermidade orgânica sobre a distribuição da libido.
Todos sabemos e consideramos natural que o sujeito atormentado por uma dor
orgânica e por incômodos diversos deixe de se interessar pelas coisas do mundo
exterior que não digam respeito ao seu sofrimento. Uma observação mais acurada
nos mostra que ele também recolhe seu interesse libidinal dos objetos de amor e
que, enquanto estiver sofrendo, deixará de amar. Apesar da banalidade desse
fato, não devemos deixar de traduzi-lo para os termos próprios da teoria da
libido.Diríamos então: o doente recolhe seus investimentos libidinais para o Eu
e torna a enviá-los depois da cura. “A alma inteira encontra-se recolhida na
estreita cavidade do molar”, diz W. Busch sobre o poeta que sofre de dor de
dente. Nesse caso, tanto a libido quanto o interesse do Eu têm o mesmo destino
e são, mais uma vez, indiferenciáveis entre si. O tão conhecido egoísmo do
doente abarca ambos. As pessoas acham esse egoísmo natural, porque sabem que em
situação semelhante se comportariam da mesma forma.”
Segundo Valeska Pessato
(2011), por meio da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se conectar com
ideias recalcadas que produzem os sintomas atuais. Assim, ele passa a ter uma
nova compreensão desta memória. Supõe-se que, na medida em que o paciente mantêm
ideias recalcadas de eventos ligados ao passado, este passado torna-se
presente, uma vez que é constantemente atualizado através dos sintomas, quando
a reação é reprimida, o afeto permanece ligado à lembrança e produz sintoma.
Lembranças significativas que os pacientes relutavam em apresentar. As cenas
trazidas à mente tinham, frequentemente, um efeito catártico.
A vida do ser humano está em
constante mudança, o meio onde ele vive participa de tais mudanças. Para que o
sujeito se adapte é necessário um tempo, mas, não significa que irá se adaptar,
às vezes este ambiente pode lhe trazer uma grande dor, tristeza, ansiedade,
depressão e outros problemas que impossibilita o sujeito de viver sem
sofrimento. Sabemos que o mal-estar está presente em nosso dia a dia.
A construção de cada caso é feito
a partir da representação que o paciente tem de seu próprio sintoma, em
particular da sua patologia, envolvendo aspectos de sua formação cultural,
social e individual, é de cada sujeito. Em certos casos o psicanalista irá
encontrar situações onde a identidade do paciente é substituída, passando a ser
identificado como um órgão doente, ou mesmo um número.
O sujeito se vê a beira de
um precipício, já não há mais sentido de viver, a doença dominou sua vida,
acabando com seus sonhos e desejos. Diante da família ele se vê em uma total
inutilidade, aqueles sintomas o arrasaram como uma tempestade de verão, levando
todos os teus sonhos e desejos para um leito de hospital. O sujeito perde sua
total autonomia, tornando-se estorvo para si próprio, família e amigos. Naquele
momento o sujeito torna-se inválido diante de seu olhar e do olhar do Outro.
Deve se estar alerta,
principalmente, à maneira como o paciente reage frente ao seu diagnóstico. Como
a vida psíquica e social interfere na dinâmica subjetiva do sujeito. O hospital
é um lugar de experiências humanas muitas vezes extremas. Muitas vezes a
fragilidade do corpo, com a dor, com o sofrimento são emaranhados junto às
perdas e tristezas.
O psicanalista deve estar
disponível para acolher o sujeito, escutar seus medos, suas fantasias em
relação à possibilidade de perda, expectativas, sobretudo se a situação é de
grande risco.
Em associação livre com
alguns pacientes, nota-se um grande medo, “o
medo da morte”, o medo de morrer sozinho, medo de alguém morrer ali do
lado. O medo pode ser um fator pelo qual o paciente se angustia, nos relatos
eles falam da morte de companheiros de quarto que morreram ali próximos a eles.
Um medo inevitável, na qual a ansiedade toma conta do sujeito causando uma
profunda dor na alma. Aprender a suportar este medo constitui um dos objetivos
principais da análise aponta Ferenczi.
O novo e o desconhecido e
algo que assusta todos nós. Como pensar no novo e no desconhecido sem pensar na
morte?
A sociedade, ainda hoje
considera a morte um tabu, um tema evitado, ignorado, postergado, fazendo com
que vejamos a morte como algo que acontece com os outros e não conosco. O medo
da morte é muito grande entre as pessoas, pois, nunca estaremos preparados para
morrer ou ver alguém morrer. É preciso falar da morte!
ELABORAÇÃO
DO LUTO
Em seu texto Reflexões para
os tempos de guerra e morte, Freud (1915), nos fala de nossa atitude para com a
morte, afirma que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou dizendo a mesma
coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de
sua própria imortalidade. “Quando se trata da morte de outrem, o homem
civilizado cuidadosamente evita falar de tal possibilidade no campo auditivo da
pessoa condenada. Apenas as crianças desprezam essa restrição e
desembaraçadamente se ameaçam uma às outras com a possibilidade de morrer,
chegando inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa com alguém que amam, como,
por exemplo: “Querida mãezinha, quando você morrer eu farei isso ou aquilo”.
Dificilmente o adulto civilizado sequer pode alimentar o pensamento da morte de
outra pessoa, sem parecer diante de seus próprios olhos empedernido ou malvado;
a menos que, naturalmente, como médico ou advogado ou algo assim, tenha de
lidar com a morte em caráter profissional.
Já o olhar do analista
diante do sofrimento do sujeito deverá sempre fazer suas análises e supervisão.
Com
as perdas as famílias e amigos sofrem, ficando toda desajustada, alguns membros
adoecem por não conseguirem superar a perda. Sendo assim, o psicanalista atuará
de uma forma à ajudar a família a se ajustar e em muitas vezes, preparar aquela
família para a partida do ente querido que está prestes a morrer. Devemos
trabalhar com a família a elaboração de seu luto; as suas dificuldades, os
sofrimentos do sujeito, seus desejos, as formas de buscar a tranquilidade em
si.
Em
seu texto Luto e Melancolia, Freud (1915), aponta a diferença e os caminhos de
estar em luto ou em estado de melancolia.
O luto, de
modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração
que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de
alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem
melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas
possuam uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto
envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a
vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e
submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após um lapso de
tempo do inconsciente, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer
interferência de medicamentos em relação a ele.
Podemos
perceber alguns traços mentais presentes no luto e na melancolia: o sujeito
perde a capacidade de amar, perde total interesse pelo mundo externo, perde a
vontade de qualquer atividade de sua vida, diminuição da auto-estima a ponto de
encontrar a expressão em auto-recriminação e auto-envelhecimento sempre
acompanhado de pensamentos de punição. Lembrando que todos estes sintomas estão
presentes nas duas, mas que, apenas uma está ausente no luto que é a
perturbação da auto-estima.
Roudinesco
(1998), nos fala da diferenciação entre o luto e a melancolia.
Enquanto o
sujeito, no trabalho do luto, consegue desligar-se progressivamente do objeto
perdido, na melancolia, ao contrário, ele se supõe culpado pela morte ocorrida,
nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte.
Em suma, o eu se identifica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se
perder no desespero infinito de um nada irremediável.
Como
vimos, Freud caracteriza o luto como a perda de um elo significativo entre o
sujeito e seu objeto amado, portanto, um fenômeno mental e natural do processo
de desenvolvimento humano. O sujeito necessariamente não precisa perder um ente
querido, pode perder o objeto de seu desejo, tais perdas podem ser simbólicas
ou reais.
Há
casos de luto em que o sujeito passa a sofrer muito, pois, de alguma forma o
desejo da morte do outro partiu de si mesmo.
Quando
acontece tal fato seja a morte ou o desaparecimento, o sujeito se reprime
manifestando um luto, recriminando-se, culpando-se incansavelmente pela perda
ou morte, pela qual seu desejo foi direcionado seja consciente ou inconscientemente.
Freud
(1915), como se nota o luto é um processo lento e doloroso, que tem como
característica uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade
que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de
interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um
novo objeto de amor.
Sabemos
que o luto normal supera todas as expectativas de perda, o sujeito ao se
deparar com situações relacionadas às lembranças de convivência coma àquela
pessoa falecida, ou objeto perdido, se defrontam com a dura realidade de não
estarem mais presentes em suas vidas. Sendo assim percebe-se que o objeto já
não existe mais, na melancolia este objeto é introjetado. Através desta
percepção há uma reação com a questão da perda, do desaparecimento que partilha
de tal destino.
No
luto necessita-se de mais tempo para que o sujeito passe pela aceitação da
realidade da perda. Somente o tempo do sujeito irá sanar tal perda, através do
tempo o ego consegue libertar sua libido do objeto perdido, direcionando sua
libido para outro objeto de amor.
A
morte está presente na vida de todos, para alguns mais cedo, para outros, de
modo muito trágico, e para os privilegiados, de forma a corresponder com os grandes
ciclos naturais da vida. O fato é que a morte interrompe um processo,
modificando as possibilidades e os rumos dos envolvidos. Sabemos que a morte
faz parte da vida, mas muitas vezes as pessoas negam, talvez pelo medo, talvez
por estarem ocupados demais tentando sobreviver. Quando entendemos a morte como
a outra face da vida, esta toma um novo sentido. Podemos efetivamente viver e não somente sobreviver.
Geralmente
a morte, principalmente de pessoas queridas, nos tira de nossa rotina de uma
forma mais ou menos intensa, provocando questionamentos sobre a vida,
principalmente sobre aquelas questões que adiamos a resolução.
A
morte nos lembra de que tudo passa e que nada é para sempre, nos dá uma noção
real de que o tempo anda, e não espera. É que a vida é passageira e que tudo
que se inicia em certa vez terá seu fim. FIM!
REFERENCIAS
FREUD,
S. A dinâmica da transferência. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud,
v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.
FREUD,
S. Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud,
v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.
FREUD, S. Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1915.
FOCHESSATO, Waleska Pessato Farenzena. A Cura Pela Fala. Estudos de psicanálise. Belo Horizonte, 2011. Disponível em: http//www.cbp.org.br/curapelafala36.pdf acesso em 06/12/2014.
ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michael. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Editor Jorge Zahar, 1998.




