quinta-feira, 12 de março de 2015



TOMANDO A PALAVRA
Por Wector Freitas



A psicanálise em suas práticas nos ensina que é preciso deixar o sintoma falar para que se possa escutá-lo. O analisar sempre esbarrará nas dimensões do impossível, ou seja, por trás daquele sintoma há algo maior e recalcado no inconsciente.
Temos que acreditar que a saída do paciente não seja a medicação, e para não tomar medicamentos, tomemos palavras! O que nós psicanalistas temos de levar em conta é que o tempo todo teremos que apostar que é possível a cura pela fala, ainda que saibamos que haverá horas que o medicamento seja necessário para o sujeito falar!
Através da associação livre o analista trabalha a interpretação dos sintomas, também interpreta o que ocasionou a formação daquele sintoma, principalmente identificando as resistências que apareceram durante a análise. O sujeito chega com palavras marcadas pela angústia que demandam uma ajuda em seu sofrimento. O analista escuta as palavras por ver nestas a via de acesso ao desconhecido que habita o paciente.
            Assim, o psicanalista examinará cada caso e fará uma intervenção se necessário, de acordo com a singularidade do sujeito. Considerando que o resultado da análise dependerá da transferência construída no decorrer do tratamento.
O desenvolvimento humano é resultado da interação de diversos fatores que de certa forma contribuirão para seu crescimento pessoal. Tais fatores poderão ser de risco ou de proteção, levamos em conta que o sujeito se encontra em risco a todo o momento, devido ao mal-estar presente no meio social, contribuindo para estarem constantemente ligadas às pulsões de vida e morte. Podemos perceber que frente ao impensável, o sujeito opera um corte radical em sua história, alterando sua identidade, trazendo consequências graves em suas vidas e também para as relações entre o eu e o Outro.
            Tais resultados se notam sobre seus corpos em função de eliminação do mal-estar. Podemos observar estas funções dos sentimentos, rejeições entre o sujeito e o Outro. Enfim, tal desconforto está cada vez mais visível no destino do sujeito. A miséria humana, a convivência entre seres que pensam opostamente de forma deferente. O mal-estar que se situa no presente das relações entre o sujeito e o Outro.
Expressando assim o sintoma, naquele corpo que sofre, incansavelmente, lutando de varias formas para se tornar livre daquele material recalcado, resistindo contra conteúdos manifestos que afligem sua existência, causando assim uma total impotência no sujeito.
Pensar no sujeito hoje, certamente nos leva a considerar seu espaço, suas experiências em relação à sua cultura, suas ideias e práticas, implicando acima de tudo considerá-los como sujeito atuante, ou seja, aquele que constrói suas próprias ideias formulando suas questões significativas, propondo ações positivas e relevantes contribuindo para uma discussão de seus problemas pessoais, sociais e culturais.
            Na contemporaneidade em que vivemos sempre estaremos em contato com questões subjetivas pelas quais impossibilitam o sujeito de ter uma vida tranquila e saudável.
            Devido à exposição do sujeito a fatores que lhe causam mal-estar, há uma necessidade de reprimir aquele material que lhe causou sofrimento. Tornando sua vida insuportável.
             Em seu texto O mal-estar na civilização (1930), Freud nos fala sobre as possibilidades de felicidade e infelicidade diante de sua própria constituição de sujeito: “Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo podem dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens”. (Freud, 1930)
            O sujeito sempre estará procurando por momentos plenos e felizes, porém, tal procura, sempre poderá ser acompanhada de angústias, frustrações e decepções que causará sintomas naquele sujeito, pois quando seu desejo não se realiza o sujeito questiona a própria felicidade.
            Quando o sujeito se vê sem solução, se vê numa necessidade de se ver feliz, procurando assim as famosas pílulas da felicidade; remédios e outras drogas.
 Há uma grande procura de tais medicamentos como, por exemplo: antidepressivos, ansiolíticos, anfetaminas, estimulantes e outras drogas. Tais drogas agem em seu organismo agindo em seu psiquismo como um tampão que o impossibilita de resolver seus problemas internos, recalcados em seu inconsciente, impedindo o sujeito de se confrontar com seus medos, desejos, emoções e sentimentos mais profundos, impedindo que o sujeito se confronte com suas lembranças encobridoras localizadas no inconsciente.
Há uma resistência do sujeito, recordar seu material recalcado, pode ser algo atormentador, sabendo que, há uma facilidade enorme para se adquirir as famosas pílulas da felicidade.
Como se vê, o sujeito procura o modo mais econômico de resolver seus problemas, através das formulas químicas psicoativas encontradas na medicação. Afinal, trabalhar com sintomas psíquicos em uma análise é sempre doloroso para o sujeito. É muito mais fácil fugir do sofrimento do que trabalhar com sua elaboração.  Porém não podemos fugir de nós mesmos. É mais fácil fingir que nada está acontecendo, o sujeito se cala, mesmo sabendo que há uma grande necessidade de falar.
É necessário que o paciente assuma a parte que lhe cabe em seu sintoma a partir de sua posição de sujeito, pois, caso contrário, não há análise possível.
Haverá casos em que a medicação será necessária para aquele sujeito, para que ele não ponha sua vida em risco e a de terceiros, podemos ver isso nos casos das psicoses, entretanto nas neuroses graves também!
            Percebemos que através do uso abusivo e indiscriminado das drogas psicoativas o sujeito perde total autonomia de sua subjetividade, o uso em excesso causa vício naquele sujeito, tornando-o dependente daquela fórmula. Notamos que ainda há sintoma, porém ele está adormecido aguardando um momento para despertar novamente, enquanto houver vestígios da química naquele corpo o sintoma estará reprimido.
Em muitos casos há uma inversão de papeis, já não e mais o sujeito que se torna dependente daquela medicação, é a medicação que usa aquele corpo, tornando-o escravo da droga.
             Precisamos repensar no uso indiscriminado das substâncias psicoativas, reservando-as apenas quando estritamente necessário, na menor dose possível, e sempre com acompanhamento de um profissional da área.
A psicanálise questiona as soluções fáceis, e duvida das saídas rápidas. É um tratamento para quem aceita que é impossível "medicar" problemas pessoais e conflitos emocionais. Enfim, acredita-se que não dá para mascarar a angústia.
A psicanálise trabalha com suas técnicas de análise com o sujeito, trabalhando com fragmentos encontrados no decorrer da associação livre. Ao falar, o sujeito se comunica muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs.
O inconsciente busca ser escutado e ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas formações: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas ou lapsos; fenômenos esses que apontam para esse desconhecido que habita o sujeito.
Segundo Falcão; Macedo (2005), “assim a associação livre ganha destaque. Ao paciente cabe comunicar tudo o que ocorre, sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante, vergonhoso ou doloroso, enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio, de qualquer elemento de seu discurso. Na efetivação dessa regra fundamental instaura-se a situação analítica, abrindo possibilidades do desvendamento da palavra.” (Falcão, Macedo, 2005)
Mas para que haja um bom tratamento o analista deve construir uma transferência significativa com o tratamento e o paciente.
Sabendo que em muitas vezes haverá uma resistência daquele sujeito diante de seus sintomas.
De acordo com LAURENT (2004): “No momento mesmo em que aprendemos a falar, fazemos a experiência de alguma coisa que vive de forma diferente no vivente, que é a linguagem e as significações. É nesse mesmo movimento que comunicamos nossas experiências libidinais e que fazemos a descoberta dos limites dessa comunicação – o fato de que a linguagem é um muro. Se não somos excessivamente esmagados pelo mal entendido, então conseguimos falar. Mas fazemos então a experiência de que não sairemos mais da linguagem.” (LAURENT, 2004).
Há uma necessidade de falar, expressar suas angústias, recalques internalizados em seu inconsciente. Quando se veem ignorados protestam, decretando guerra há si mesmo. Buscando fuga de sua própria realidade, buscando uma forma de identificação. Quando não se encontra há uma frustração que causa um trauma e um grande sofrimento naquele sujeito.
É neste sentido que a psicanálise trabalha com o sujeito amenizando seu sofrimento, ouvindo-o, dando a palavra para que ele possa através de seu discurso falar de suas angústias.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FALCÃO, Carolina Neumann de Barros; MACEDO, Monica Medeiros Kother. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psyché, janeiro-junho, ano: 2005/ vol. IX, numero 015. Universidade São Marcos. São Paulo, Brasil, p.65-76.

FREUD, S. Mal – Estar na civilização. Em ESB – Obras completas. Vol. XXI. Rio de Janeiro: Ed. Imago. 1929.

LAURENT, E. O trauma e o avesso. In: Papéis de psicanálise. Belo Horizonte: IPSM-MG, 2004.