TOMANDO
A PALAVRA
Por Wector Freitas
A psicanálise em suas
práticas nos ensina que é preciso deixar o sintoma falar para que se possa
escutá-lo. O analisar sempre esbarrará nas dimensões do impossível, ou seja,
por trás daquele sintoma há algo maior e recalcado no inconsciente.
Temos que acreditar que a
saída do paciente não seja a medicação, e para não tomar medicamentos, tomemos
palavras! O que nós psicanalistas temos de levar em conta é que o tempo todo
teremos que apostar que é possível a cura pela fala, ainda que saibamos que
haverá horas que o medicamento seja necessário para o sujeito falar!
Através da associação livre
o analista trabalha a interpretação dos sintomas, também interpreta o que
ocasionou a formação daquele sintoma, principalmente identificando as
resistências que apareceram durante a análise. O sujeito chega com palavras
marcadas pela angústia que demandam uma ajuda em seu sofrimento. O analista
escuta as palavras por ver nestas a via de acesso ao desconhecido que habita o
paciente.
Assim,
o psicanalista examinará cada caso e fará uma intervenção se necessário, de acordo
com a singularidade do sujeito. Considerando que o resultado da análise dependerá
da transferência construída no decorrer do tratamento.
O desenvolvimento humano é
resultado da interação de diversos fatores que de certa forma contribuirão para
seu crescimento pessoal. Tais fatores poderão ser de risco ou de proteção, levamos em conta que o sujeito se encontra em risco a
todo o momento, devido ao mal-estar presente no meio social, contribuindo para
estarem constantemente ligadas às pulsões de vida e morte. Podemos perceber que
frente ao impensável, o sujeito opera um corte radical em sua história,
alterando sua identidade, trazendo consequências graves em suas vidas e também
para as relações entre o eu e o Outro.
Tais
resultados se notam sobre seus corpos em função de eliminação do mal-estar.
Podemos observar estas funções dos sentimentos, rejeições entre o sujeito e o
Outro. Enfim, tal desconforto está cada vez mais visível no destino do sujeito.
A miséria humana, a convivência entre seres que pensam opostamente de forma
deferente. O mal-estar que se situa no presente das relações entre o sujeito e
o Outro.
Expressando assim o sintoma,
naquele corpo que sofre, incansavelmente, lutando de varias formas para se
tornar livre daquele material recalcado, resistindo contra conteúdos manifestos
que afligem sua existência, causando assim uma total impotência no sujeito.
Pensar no sujeito hoje,
certamente nos leva a considerar seu espaço, suas experiências em relação à sua
cultura, suas ideias e práticas, implicando acima de tudo considerá-los como
sujeito atuante, ou seja, aquele que constrói suas próprias ideias formulando
suas questões significativas, propondo ações positivas e relevantes
contribuindo para uma discussão de seus problemas pessoais, sociais e culturais.
Na
contemporaneidade em que vivemos sempre estaremos em contato com questões
subjetivas pelas quais impossibilitam o sujeito de ter uma vida tranquila e
saudável.
Devido
à exposição do sujeito a fatores que lhe causam mal-estar, há uma necessidade
de reprimir aquele material que lhe causou sofrimento. Tornando sua vida
insuportável.
Em seu texto O mal-estar na civilização (1930), Freud nos fala sobre as
possibilidades de felicidade e infelicidade diante de sua própria constituição
de sujeito: “Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas
por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de
experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso
próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo podem
dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo
externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e
impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens”.
(Freud, 1930)
O
sujeito sempre estará procurando por momentos plenos e felizes, porém, tal
procura, sempre poderá ser acompanhada de angústias, frustrações e decepções
que causará sintomas naquele sujeito, pois quando seu desejo não se realiza o
sujeito questiona a própria felicidade.
Quando
o sujeito se vê sem solução, se vê numa necessidade de se ver feliz, procurando
assim as famosas pílulas da felicidade; remédios e outras drogas.
Há uma grande procura de tais medicamentos
como, por exemplo: antidepressivos, ansiolíticos, anfetaminas, estimulantes e
outras drogas. Tais drogas agem em seu organismo agindo em seu psiquismo como
um tampão que o impossibilita de resolver seus problemas internos, recalcados
em seu inconsciente, impedindo o sujeito de se confrontar com seus medos,
desejos, emoções e sentimentos mais profundos, impedindo que o sujeito se
confronte com suas lembranças encobridoras localizadas no inconsciente.
Há uma resistência do
sujeito, recordar seu material recalcado, pode ser algo atormentador, sabendo
que, há uma facilidade enorme para se adquirir as famosas pílulas da felicidade.
Como se vê, o sujeito
procura o modo mais econômico de resolver seus problemas, através das formulas
químicas psicoativas encontradas na medicação. Afinal, trabalhar com sintomas
psíquicos em uma análise é sempre doloroso para o sujeito. É muito mais fácil
fugir do sofrimento do que trabalhar com sua elaboração. Porém não podemos fugir de nós mesmos. É mais
fácil fingir que nada está acontecendo, o sujeito se cala, mesmo sabendo que há
uma grande necessidade de falar.
É necessário que o paciente
assuma a parte que lhe cabe em seu sintoma a partir de sua posição de sujeito,
pois, caso contrário, não há análise possível.
Haverá casos em que a
medicação será necessária para aquele sujeito, para que ele não ponha sua vida
em risco e a de terceiros, podemos ver isso nos casos das psicoses, entretanto
nas neuroses graves também!
Percebemos
que através do uso abusivo e indiscriminado das drogas psicoativas o sujeito
perde total autonomia de sua subjetividade, o uso em excesso causa vício
naquele sujeito, tornando-o dependente daquela fórmula. Notamos que ainda há
sintoma, porém ele está adormecido aguardando um momento para despertar
novamente, enquanto houver vestígios da química naquele corpo o sintoma estará
reprimido.
Em muitos casos há uma
inversão de papeis, já não e mais o sujeito que se torna dependente daquela
medicação, é a medicação que usa aquele corpo, tornando-o escravo da droga.
Precisamos repensar no uso indiscriminado das
substâncias psicoativas, reservando-as apenas quando estritamente necessário,
na menor dose possível, e sempre com acompanhamento de um profissional da área.
A psicanálise questiona as
soluções fáceis, e duvida das saídas rápidas. É um tratamento para quem aceita
que é impossível "medicar" problemas pessoais e conflitos emocionais.
Enfim, acredita-se que não dá para mascarar a angústia.
A psicanálise trabalha com
suas técnicas de análise com o sujeito, trabalhando com fragmentos encontrados
no decorrer da associação livre. Ao falar, o sujeito se comunica muito mais do
que aquilo a que inicialmente se propôs.
O inconsciente busca ser
escutado e ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas
formações: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas ou lapsos; fenômenos esses
que apontam para esse desconhecido que habita o sujeito.
Segundo Falcão; Macedo
(2005), “assim a associação livre
ganha destaque. Ao paciente cabe comunicar tudo o que ocorre, sem deixar de
revelar algo que lhe pareça insignificante, vergonhoso ou doloroso, enquanto
que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio, de qualquer elemento de
seu discurso. Na efetivação dessa regra fundamental instaura-se a situação
analítica, abrindo possibilidades do desvendamento da palavra.” (Falcão,
Macedo, 2005)
Mas para que haja um bom
tratamento o analista deve construir uma transferência significativa com o
tratamento e o paciente.
Sabendo que em muitas vezes
haverá uma resistência daquele sujeito diante de seus sintomas.
De acordo com LAURENT
(2004): “No momento mesmo em que aprendemos a falar, fazemos a experiência de
alguma coisa que vive de forma diferente no vivente, que é a linguagem e as
significações. É nesse mesmo movimento que comunicamos nossas experiências
libidinais e que fazemos a descoberta dos limites dessa comunicação – o fato de
que a linguagem é um muro. Se não somos excessivamente esmagados pelo mal
entendido, então conseguimos falar. Mas fazemos então a experiência de que não
sairemos mais da linguagem.” (LAURENT, 2004).
Há uma necessidade de falar,
expressar suas angústias, recalques internalizados em seu inconsciente. Quando
se veem ignorados protestam, decretando guerra há si mesmo. Buscando fuga de sua própria realidade, buscando uma
forma de identificação. Quando não se encontra há uma frustração que causa um
trauma e um grande sofrimento naquele sujeito.
É neste sentido
que a psicanálise trabalha com o sujeito amenizando seu sofrimento, ouvindo-o,
dando a palavra para que ele possa através de seu discurso falar de suas angústias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FALCÃO, Carolina Neumann de Barros; MACEDO, Monica
Medeiros Kother. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psyché,
janeiro-junho, ano: 2005/ vol. IX, numero 015. Universidade São Marcos. São
Paulo, Brasil, p.65-76.
FREUD, S.
Mal – Estar na civilização. Em ESB – Obras completas. Vol. XXI. Rio de
Janeiro: Ed. Imago. 1929.
LAURENT, E. O trauma e o avesso. In: Papéis de psicanálise. Belo Horizonte:
IPSM-MG, 2004.
