sexta-feira, 24 de abril de 2015


O Irredutível (Mal-estar) da Autorização

Eduardo Lucas Andrade ¹




Trabalho apresentado no Colóquio “O Mal-estar na psicanálise: do sujeito à cultura” promovido pela Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano; Fórum do Campo Lacaniano Diagonal – BH no dia 11 de Abril de 2015.
Agradeço a comissão científica deste Colóquio pela acolhida de meu trabalho. Acolher é ponto clínico que invoca transferência de trabalho e trabalho de transferência. a-colher, colher o objeto pequeno a, é colheita de mal-estar, de objeto causa de desejo. Que colhamos frutíferos Insights!
Gente! Instigante é o tema eleito! Inseriram, ferindo os narcisistas de plantão, um mal-estar na psicanálise. Uai, Isso pode ser gostoso!
Para finalizar os comentários e os agradecimentos e para já adentrar no meu trabalho, agradeço a autorização que me foi concedida, restou-me fazer com o mal-estar. Boralá! Abordar O Irredutível (mal-estar) da Autorização?!


A psicanálise avança nos desassossegos da vida cotidiana. Avança com o mal-estar. São avanços inefáveis com efeitos colaterais, não sem consequência. Em psicanálise não se trata de fazer calar o mal-estar, e sim de escutá-lo em suas parcelas de descontentamentos para promoção de novos valores ao destino do inconsciente, pedacinhos de felicidade. Pensar o mal-estar na psicanálise, portanto, título deste Colóquio, é convocar o psicanalista a responder de algum lugar os contornos de sua autorização. Desassossegos e desejos. Penso em trabalhar aqui o umbigo da autorização, já que há algo nesta que é irredutível e que perpassa a análise dos próprios sonhos.
O psicanalista, aponta-nos Lacan, é quase um aforismo, autoriza-se por si mesmo e outras coisas mais. O que equivale dizer que a autorização, auto, passa pela análise do psicanalista, eixo central do tripé freudiano. Há algo na autorização que é irredutível às Escolas e às Universidades e também é irredutível à autorização própria, pois esta não deve ser autística – torna-se um louco o analista que não encontrar, na maioria das vezes, correlatos à sua autorização. Esta alegórica colocação lacaniana da autorização de si mesmo e algo a mais também faz par com aquilo que Freud apontou nos seus últimos escritos, não existe auto-análise e há um tripé que exige a análise dos próprios sonhos! Então, que espécie de paradoxo é este? Como vemos, o mal-estar, sempre paradoxal, antecede o analista, aponta desejo e face de conflito. É este o mal-estar na psicanálise que coloca o estatuto ético na clínica e na autorização irredutível que temos! Freud aponta que de tempo em tempos temos que nos analisarmos com outros analistas.
Na história de vida da psicanálise foram os enigmas das histéricas que convidaram Freud à autorização. A briga que Freud comprou ao apostar na escuta das histéricas, abandonando a lógica médica para promover tratamento, foi a autorização inaugural da psicanálise. Esta também não seria possível sem o mal-estar.
No princípio, é a transferência! E esta toma emprestadas renováveis quotas de resistência nas profundezas da vida. A transferência diz do paciente. É afeto clínico, destilado ao analista, próximo ao amor sem paixão e ao ódio sem destruição. Do lado analista resta-nos a escuta flutuante, subproduto do ser causa de desejo, do manejo da contratransferência. A escuta flutuante é água límpida que torna clara e possível a associação livre. Mas, a escuta flutuante não pode ocorrer onde impera a resistência do analista. A título de preocupação, em Freud a autorização está intimamente interligada às resistências do analista.
Com Ferenczi, analista contemporâneo a Freud, temos, ao menos, dois pontos para pensarmos no tocante á autorização.
No primeiro ponto, Ferenczi destaca aquilo que para ele se trata da segunda regra fundamental da psicanálise, a análise do analista. Neste caso a autorização atravessará, na medida do possível, o abandono da hipocrisia profissional. Propõe ele, que, ao invés de indagarmos, como regra rígida, sempre a resistência do paciente, é mais viável olharmos para nós, enquanto alguém que se autorizou à analista, e analisarmos o que temos ofertado em nível da elasticidade da técnica para que o tratamento possa tornar-se possível. Ferenczi ainda aponta que a necessidade de sempre querer interpretar a qualquer custo as coisas da vida é das neuroses infantis do analista, e pode sair mais caro, pelo avesso, do que aquilo que ansiou em promover. A autorização, por exemplo, não cabe na interpretação sobre si mesmo. É irredutível a esta!
Em um segundo ponto Ferenczi convoca a autorização crítica do analista fronte a seu meio de supervisão, chamado por ele de Associação, hoje, Escolas, Sociedades e a-fins. Para ele estas organizações devem ser uma espécie de família não dogmática por onde circule a crítica e se afague o ridículo da vaidade a todos. A autorização não se reduz às instituições, sobra um excesso de sujeito ali que deve se posicionar na inscrição do mal-estar na psicanálise.
Há um irredutível no ser de cada psicanalista. O irredutível é algo que não cessa, que não engana, é o derretimento do Real que não cansa de se renovar. O irredutível é a mola mestra para o inventário próprio do estilo. Temos autorizações ortodoxas, autorizações elásticas e autorizações por charlatanismo. Destas três a terceira não promove psicanálise.
Seja qual autorização for, com Freud, a cautela deve anteceder o gozo e na autorização o tato deverá ser valorizado. É o tato do analista, amalgamado ao amor à verdade da clínica, que faz com que a ética do desejo colha frutos em uma análise. Mais uma vez, a dimensão irredutível da autorização esbarra na resistência.
Resistência é a hipocrisia ao amor à verdade. Não por acaso sem causa, Freud situa em algum lugar de sua obra que tudo aquilo que considerar fielmente a transferência e a resistência como instrumentos clínicos merecerá o nome de psicanálise. Não podemos então, alertados por Freud, cair no problema econômico da autorização. Não é sem dor. Ali onde o mal-estar aponta a angústia do analista, sua resistência, á autorização deverá advir! O psicanalista, todo ele, pagará caro para autorizar-se a si mesmo. A autorização é paga rasgando as fixações da própria libido, ponto ferido de gozo, deixando assim a sua zona de conforto. A autorização é das coisas caras de uma análise, do lado do analista. É pago um alto valor para posicionar-se enquanto analista, para não ter que pagar caro com os desdobramentos a posteriores da clínica.
A autorização do psicanalista é não toda, ficará sempre um resto no traçado pulsional que é irredutível ao trabalho de sua própria análise, foi isso que Freud designou de umbigo dos sonhos. Em psicanálise temos que saber fazer com os restos e estes restos irredutíveis servem-nos para estarmos sempre alerta. Os escoteiros ficam sempre alerta para não se perderem na selva, assim é com a autorização do psicanalista. O psicanalista deve estar sempre alerta para não se perder em análises selvagens!
Lutando contra formações selvagens e evitando o gozar da posição de analista, ganhos narcisistas e perversos, Freud estabelece o tripé para a formação analítica. Vai e volta no lugar do analista durante a sua obra, aponta que a análise é leiga, toca o chão da realidade e provoca a construção clínica. A autorização deve ser levada a cabo na abstinência!
A autorização é o negativo da formação. A autorização é prêmio magno daquele que encara a travessia das próprias resistências. Nomeá-las não faz com que desapareçam, é preciso repetir, recordar e elaborar, é preciso um tempo à autorização, um toque inaugurável e interminável, já que esta é irredutível e incontornável pela sede pulsional e por qualquer registro de tempo.
Por fim, o irredutível da autorização é um dos mal-estares necessários à psicanálise do Belo Horizonte de nossa época!
Obrigado!


¹ Eduardo Lucas Andrade é psicanalista; psicólogo, membro ativo e fundador do Fatias de Análise. Palestrante, organizador e mediador de respeitados eventos. Escritor, autor de vários artigos. Professor convidado e supervisor da Escola de Psicanálise de Minas Gerais, do C.E.R, do Instituto Campo Bello e outros cursos. Trabalhador com experiência na área da saúde mental, social e clínica. E-mail: psicanaliseemcena@hotmail.com