O NARCISISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Por Hélio Ferreira
Imagem: Narciso (1594-1596), por Caravaggio.
O Narcisismo, em psicanálise, representa um modo particular
de relação com a sexualidade. É um conceito crucial no seu desenvolvimento
teórico. O narcisismo é um protetor do psiquismo e um integrador da imagem
corporal, ele investe o corpo e lhe dá dimensões, proporções e a possibilidade
de uma identidade, de um Eu. O narcisismo ultrapassa o auto-erotismo e fornece
a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.
Em seu
texto
À Guisa
de Introdução ao Narcisismo, Freud, diz
que o termo narcisismo designa inicialmente o comportamento de um indivíduo que
trata seu próprio corpo como um objeto sexual. O seu corpo absorve, nesse
comportamento, toda a energia sexual.
Eliana Rigotto Lazzarini e Terezinha de Camargo Viana em seu artigo:
Ressonâncias do narcisismo na clínica psicanalítica contemporânea, nos dizem que
diagnósticos cada vez mais frequentes de depressão, drogadicção, anorexia,
bulimia e síndromes mais complexas constituem reflexos de uma cultura que passa
por momentos de indefinição e mudança com relação a valores sociais rompendo
com aspectos que eram considerados primordiais desde tempos anteriores. Pode
haver uma falha básica na constituição do eu narcísico ou mesmo nas instâncias
ideais desses sujeitos, ou seja, uma falha no recalcamento primário atribuída a
uma espécie de insuficiência (ou ineficiência) dos cuidados maternos na
primeira infância. Como consequência, a escolha do objeto (o outro da relação)
se daria com base na eleição narcisista na qual ocorre a identificação. Na
impossibilidade de escolha do objeto externo elege-se o objeto a partir da
imagem e semelhança do próprio eu transformado em seu próprio ideal que se
converteu em substituto do investimento erótico. Supõe-se que é pela
identificação narcisista com o objeto que o investimento libidinal retorna ao
eu não se direcionando ao objeto externo como esperado ficando, portanto,
estagnado. A impossibilidade do estabelecimento dos processos terciários não
poderia se dar e consequentemente a saída da condição narcísica para a condição
edípica, substrato da alteridade, também não se daria.
As
desordens narcisistas são mais coerentes com uma sociedade permissiva e também
mais eclética em suas manifestações, como a que vivemos na atualidade. Como
observa Lipovetsky (2005): “A patologia mental obedece à lei da época (...): a
crispação (contração) neurótica foi substituída pela flutuação narcísica” (p.
55).
Na
atualidade percebe-se haver um deslocamento da função paterna. Até pouco tempo
atrás, na ausência de um “pai” que exercesse o papel de lei e proteção, o mesmo
era exercido pelo estado ou pela religião. Na contemporaneidade nem o estado,
nem a igreja conseguem fazer mais este papel. Hoje, qualquer eleitor pode e
deve discordar de palavras ou atos de seus governantes, quando estes não lhe
agradam. Para católicos a palavra do
papa já pode ser contestada. As novas configurações de um mundo cada vez mais
narcísico, globalizado e consumista, deslocaram a função paterna para a
ciência, o capitalismo e a tecnologia. Porém o nome do pai está a deriva, e
quando o nome do pai está a deriva o sujeito também está.
Para reconhecermos uma
consequência do deslocamento do nome do pai, e consequentemente de uma nova
forma de narcisismo que vem se apresentando no mundo, é só voltarmos nosso
olhar para as redes sociais. Ali observaremos um funcionamento narcisista por
grande parte de seus participantes onde a fronteira marcada entre o que é
público e o que é privado já não existe. Embora estes sujeitos tenham pouca
capacidade para perceber o outro, há uma
exagerada preocupação com a sua própria aparência, apresentam uma grande
necessidade de serem amados e admirados, almejam “curtidas” e elogios e se
sentem inferiores e infelizes quando criticados ou ignorados. A todo momento
busca-se o olhar e o reconhecimento do outro.
Levando-se uma vida emocional superficial. Um Narciso empobrecido de
linguagem, mas rico de olhares, imagens e amigos virtuais.
Eliana Rigotto
Lazzarini e Terezinha de Camargo Viana no artigo citado a pouco, nos perguntam: nos dias de hoje, o que podemos
dizer de uma sociedade como a nossa que se vê compelida por uma revolução
calcada nos avanços científicos e tecnológicos, muitas vezes, em descompasso
com a possibilidade de apreensão imediata pelo indivíduo; uma sociedade
competitiva que pode gerar o empobrecimento da experiência coletiva e valorizar
os interesses e as demandas íntimas. Que bases essa sociedade estaria
oferecendo para a constituição da individuação/subjetivação? E mais, o que
dizer dos sujeitos, estes não estariam sendo sobrecarregados e prejudicados
pelos padrões de eficiência dessa sociedade
altamente desenvolvida? E qual o destino desse sujeito? Nos momentos de indefinições, de grandes e
rápidas mudanças o sujeito esboça um movimento regressivo, um movimento
narcísico direcionado a si próprio, ou seja, o eu deste sujeito se comporta
como objeto de seu próprio investimento o qual se caracterizaria por uma
idealização de si, uma forma de se sentir pleno. Pensamos que o destino do
sujeito hoje, em nossa sociedade, seria uma volta a si marcada pelo retorno à
constituição da perfeição narcísica e a proteção e satisfação da vivência
simbiótica com o objeto primordial alojado dentro de si. São sinais inerentes a
essa subjetivação o stress a depressão e uma inclinação à angústia e ansiedade
mais profundas causadas pelo desapego da coisa externa. Nesta condição, o
sujeito vê ameaçado seu projeto de vida pela impossibilidade de poder vivenciar
plenamente suas experiências.
O
publicitário João Matta em seu texto: Narcisismo e a sociedade do espetáculo: o
ideal do ego no mundo contemporâneo, nos diz que o narcisismo... pode ser, ao
invés de um sinônimo de uma sociedade individualista e egoísta, uma importante
porta de saída para o sujeito atual, oprimido a gozar o tempo todo a partir do
consumo imposto pela moda.
Certas formas de pensamento
chamam a atenção porque fazem uma nova cartografia da subjetividade e do
mal-estar na contemporaneidade. O
cultivo da alma foi deixado de lado sendo o cultivo do corpo nosso bem supremo.
Estamos vivendo em uma cultura com características crescentemente narcisistas;
onde há um predomínio do uso da imagem de ação em vez da reflexão para
lidar com a ansiedade e um incentivo exagerado ao consumismo e ao culto ao
corpo. O corpo é o cenário onde nosso mal estar se apresenta. Quando não se
consegue falar ou pensar sobre as intensidades pulsionais, tende-se a dar vasão
a estas intensidades através da ação, ou sobre o próprio corpo. Porém, devido a
questão narcísica o sujeito inconscientemente opta “explodir” pela ação. Neste
caso o sujeito tem dificuldades de simbolizar suas questões, e marcado pelo
narcisismo negativo encontra suas saídas pela pulsão de destruição, sendo
impulsionado a cometer atos marcados pela agressividade e criminalidade.
Prevalecendo a ausência de pensamento e linguagem.
Como no Mito do Narciso, o
paciente com esse tipo de funcionamento constrói sua sensação de
engrandecimento da auto-estima através de uma intensa desvalorização, rejeição
e abandono dos objetos. E sobre a base dessa rejeição que o organismo se
estrutura. (Lewkowicz, 2005).
Ainda assim a psicanálise demonstra que há o
narcisismo saudável e necessário, que seria uma das fases essenciais no
desenvolvimento da libido. O narcisismo não constitui por si só uma patologia,
ele é um integrador e protetor da personalidade e do psiquismo.
Em uma
sociedade cada vez mais individualista, com sujeitos que se vem obrigados a
gozar o tempo todo, faltam palavras e sobram atos. A psicanálise nos convida a
trabalhar no sentido da escuta do sofrimento e do mal estar destes sujeitos, considerando
suas subjetividades e auxiliando-os na elaboração de novas formas de
subjetivação. É fundamental que os mesmos encontrem meios de contenção e
simbolização do excesso pulsional, para que se torne cada vez menos intensa a
pulsão de destruição (seja através de práticas sádicas ou masoquistas).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
ELIANA RIGOTTO LAZZARINI; TEREZINHA DE
CAMARGO VIANA ; Análise Psicológica (2010), 2 (XXVIII): 269-280; Ressonâncias
do narcisismo na clínica psicanalítica contemporânea.
FREUD Sigmund. Introdução ao Narcisismo
ensaios de Metapsicologia e outros textos (1914 1916) In: Obras psicológicas
completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago
FREUD, Sigmund (1996). O mal-estar na
civilização. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard
brasileira. Rio de Janeiro: Imago.


