Que Tempo é Dinheiro Não Foi o Inconsciente em Análise Quem Disse
Por Eduardo Lucas Andrade, psicólogo, psicanalista,
membro Fatias de Análise.
Certa vez escutei em exercício de
psicanalista que “Tempo é dinheiro”, fórmula, no mínimo interessante.
Atravessamento, não sem consequência, capitalista. Minha pontuação naquele
momento foi a de dizer que tempo é ilusão. Pontuação esta que também vale para
a fórmula, “dinheiro traz a felicidade”. Aqui, nesta maçante formulação temos
questões que alimentam nosso debate.
A psicanálise pela escuta de um
inconsciente amalgamado ao social presta renovável encanto à temática do
pagamento em análise. Aqui dinheiro é instrumento de análise, o pagamento é ato
analítico. Sua forma? É transferencial e ponto de intervenção. Quanto ao tempo?
Idem! Ambos, tempo e dinheiro, são desnaturalizados em análise para que cada um
promova sua condição de pagante e de compromissado com as coisas do desejo. Em
análise, tempo não é dinheiro! O tempo toca no desejo, o dinheiro no gozo,
fronteiras do bifronte sintoma.
O capitalismo vai à clínica, muitas das
vezes dizendo no lugar do inconsciente e ou este dizendo por ele. Assim é a
questão do pagamento em análise. O paciente vê este como uma relação de capital
e o analista sabe, ou devia saber, que o capital em análise é das relações de
libido. A capital é o desejo. O pecado capital é tentar fugir de si mesmo.
Assim, não dá, devido a cada caso, abandonar as coisas do dinheiro como
fundamento clínico.
Abandoná-las neste debate seria um luxo
pela rasante economia que efetuaríamos, entretanto a psicanálise não deve
recuar! O luxo, definitivamente, não é o lugar da psicanálise, e que economia é
esta? É a economia que atravessa a formação do sintoma, há um inconsciente em
jogo, algo pulsional. As vértices das palavras estão à deriva na escuta
flutuante, o pagamento é âncora. Paga-se, cada qual, ao seu modo de cifrar o
gozo.
Retornemos à questão “tempo é dinheiro”. Que tempo é dinheiro não foi o
inconsciente na clínica quem disse. Isso é reprodução, lógica consciente,
defesa sobre insegurança.
Reprodução por identificação ao sintoma
social. Armação sobre a falta. Montagem à angústia cujo sinal é cifrado.
Entretanto, esta frase aponta algo velado, isto é, a morte do sujeito, a
salvação desbussolada pelo gozo. Vela-se a própria existência. E em análise,
como sabemos, o inconsciente traz a condição vivificante de desejo, de falta,
de sujeito que lida com seu gozo pagando caro pela retirada das crostas de seu
sintoma, ainda que tente e salve algo deste. Deste; sintoma, tempo, dinheiro.
Em análise o dinheiro também não é o caminho para a felicidade, isto soa
refúgio e em psicanálise não se permite fugir de si mesmo. Eis o verdadeiro
pagamento, o real do encontro com si mesmo.
Em alguns casos o dinheiro pode até ser
causa de desejo, por isto este tema não é regra em análise e pode até mesmo ser
bizarro, por tocar no inconsciente e paradoxal pelas plasticidades que
encontra. Em nome do dinheiro, do representante do pagamento, me disponho! Falo
do meu sintoma, mas salvo algo para usufruto posterior. O dinheiro como impulso
para tratar o inconsciente. Aqui temos o dinheiro fazendo transferência, o
dinheiro fazendo resistência. O dinheiro artificializando o lugar de sujeito
perante seus débitos, faltas e castrações.
Sendo a psicanálise uma ferramenta
ética comparada por Freud a um bisturi, onde pode ser usada para curar e ou
para cortar e matar, não podemos ser, tomo emprestado o conceito ferencziano,
hipócritas profissionais ao ponto de em nome do desejo compactuar com a saúde
capitalista. “Nada na vida é tão caro quanto à doença e a estupidez” é uma
frase poética de Freud, necessária e por isso, não pode ser tomada sem
consequência. É preciso esmiuçá-la, aqui faremos. A psicanálise trabalha com a
vida, não com os sintomas. Nem sempre é por falta de desejo que o sujeito deixa
o tratamento e ou não o procura.
Tratamentos caros, elitizados e com
preços fixos tratariam esta frase como se o pobre não tivesse condição bastante
em seu inconsciente para lidar com a doença e estupidez, sendo nós, neste
momento, o estúpido. Corrompidos por tomar o gozo sem cautela.
Brilharia o bolso do analista se as
análises fossem ab-surda-mente caras, entretanto retiraria o brilho da clínica,
isto é, perderíamos a capacidade de apostar no Insight e na escuta flutuante.
Dizer que é por falta de dinheiro, de desejo, é confortante, daí Ferenczi
propor que nos questionemos antes. Se nada na vida é tão caro quanto a doença e
a estupidez não seria com o dinheiro que nos salvaríamos destes males humanos
necessários para organização, doença e estupidez.
Aqui vemos claramente, por falar, que o
pagamento é outro. O preço aqui é singular. O caro de cada um é permitir-se
cutucar a mais íntima ferida da doença para tratá-la e encorajar-se a assumir a
estupidez do qual se é digno. A saída da psicanálise, seu tratamento, não tem
classe social. Daqui avançamos a outros importantes pontos, tal como a
elasticidade da técnica proposta por Ferenczi.
Nesta elasticidade possível, recorro
rapidamente á questão do convênio para tratamento. Qual convênio é possível à
psicanálise? O convênio do desejo, convenção de fala. O convênio não pode ser o
responsável por bancar o tratamento, aqui devemos salvar a singularidade do
sujeito. Ainda que este pague menos, é este alguém que banca o tratamento. O
sujeito na clínica não pode ser anulado, nem pelo convênio. Este pode ser uma
ferramenta para possibilitar o tratamento, mas o tratado deve ser feito com o
sujeito, aqui também não há padrão possível. No convênio o valor deve ser
definido, ainda que financeiramente mais baixo, com cada caso.
Freud apontava o porvir deste tema, da
plasticidade de abordar o dinheiro na clínica, como podemos observar, por
exemplo na passagem que segue:
“Mais cedo ou mais tarde, a consciência
moral da sociedade despertará e se lembrará que o pobre não tem menos direito à
terapia da mente quanto os que já tem em matéria de cirurgia básica. E que as
neuroses não constituem menor ameaça à saúde popular que a tuberculose e,
portanto, da mesma maneira que esta, não podem ser deixadas ao cuidado
impotente do indivíduo pertencente às camadas populares (...). Estes
tratamentos serão gratuitos” (Freud, 1918)
Os tratamentos no SUS, como o paciente
neles pagam? Qual o limite do gratuito e do pagar? Se lá estão indo os psicanalistas,
que estes tomem a convocação lacaniana e dizem do que estão fazendo.
E Freud segue preciosamente dizendo em sua obra que os ingredientes mais
eficazes e importantes de uma clínica seguirão sendo os que ela tome da
psicanálise rigorosa, não virando selvagem, a característica de ser alheia a
toda tendenciosidade. “Alheia a toda tendenciosidade”, parece que aqui Freud
resume de forma magistral a ética da psicanálise para com as questões do
dinheiro na clínica.
Qual ética está em jogo? Este é outro ponto
que trago para desassossego.
Freud pagou caro pela psicanálise! O
tempo de análise? Ande! Intervém Freud. Assim podemos pensar,o valor de
análise? Pague!
Já buscando um término neste interminável tema, abordo que nas cartas
entre Freud e Ferenczi eles tocaram na construção do pagamento da análise e já
apontaram, ainda naquela época, que a coisa não é o valor monetário e sim o
preço do desejo, algo sexual que perpassa a transferência, intervenção, libido
e compromisso com o sintoma:
“O que o Sr. me conta na última carta
ocupou minha mente em diferentes direções. (...) O jovem rapaz de Pre*burg
também está insatisfeito aqui com Sadger. Ele gosta mais do Sr. pessoalmente e
gostaria de voltar para o Sr., se os conhecidos dele em Budapeste não fossem
molestá-lo. Ele também tem algo contra Rekawinkel. No fundo, ele não quer nada.
Eu mandei dizer a ele umas grosserias através da mãe.
Aproveito a ocasião para dizer que está
errado em cobrar apenas 10 coroas pela sessão, quando Sadger está cobrando 20.
Veja, o Sr., as 10 coroas não retiveram o rapaz com o Sr., nem as 20 o
impediram de procurar Sadger. Prometa-me corrigir-se!”(Freud à Ferenczi)
Aproveito a oportunidade e postulo um recorte de Ferenczi:
"Mesmo o homem mais abastado faz cara feia quando tem que dar dinheiro
ao médico ... um exemplo desconcertante ofertado por um paciente: 'Doutor, se
me ajudar dou-lhe de presente toda a minha fortuna'. O médico respondeu: 'Me
contentarei com as 30 coroas por sessão.' 'Não acha um pouco salgado?' Foi o
comentário inesperado do paciente." (Ferenczi, 1928)
E para agora sim abrir o debate e
encerrar minha contribuição preliminar, transcrevo outro recorto, desta vez de
Freud, sobre o pagamento em análise ele diz: "poderosos fatores sexuais se
acham ligados às coisas do dinheiro."
Se a libido se desdobra e se faz
mutação em dinheiro, este é um tema importante para a clínica. Falemos mais
disso!

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