quinta-feira, 4 de junho de 2015


DISCURSOS DE ÓDIO NO FAZER POLÍTICO


Artigo publicado por membros Fatais de Análise estampa a capa e matéria central da revista Psique Ciência e Vida ed 113.

Por Eduardo Lucas Andrade; psicanalista; psicólogo, membro ativo e fundador do Fatias de Análise. Palestrante, organizador e mediador de respeitados eventos. Escritor, autor de vários artigos. Professor convidado da Escola de Psicanálise de Minas Gerais e outros cursos. Trabalhador com experiência na área da saúde mental, social e clínica.E-mail: psicanaliseemcena@hotmail.com

 Gildásio Eustáquio Pinto; psicólogo e graduado em Letras pela (UNIFOR). Membro ativo e fundador do Fatias de Análise, pós graduado em Gestão de Pessoas pela PUC- MG, tem ampla experiência na gestão escoteira, escritor com vários artigos publicados.E-mail: gildasiopinto@yahoo.com.br









Poeta da Amazônia, Thiago de Melo disse ‘o caminho não existe, o caminho se faz caminhando’. Freud já havia nos adiantado que os poetas sabem de psicanálise e das questões do inconsciente, sabem tanto que escrevem e fazem arte e laços com elas. Entretanto eles não sabem que sabem. Freud utiliza da fábula do Esopo para apontar que a travessia é relativa aos passos de quem caminha e que a relação com o que chamamos de destino depende deste posicionamento.
Quanto ao dizer poético de Thiago de Melo, se este recorte não fosse somente um verso, seria um aforismo. O caminho é uma parte do desejo, não se caminha se não desejar. Para caminhar é necessário ao sujeito a permissão de ir e vir, uma passagem ao ato em sua própria escolha. São as escolhas que transformam ou alicerçam toda uma personalidade. E escolha é uma decisão política. Ato contínuo. Ato político.
A sabedoria dos gregos instaura uma cosmovisão de que o homem é um ser livre e que o pensar remete ideias de liberdade, ilusões de desejos, de onde vem a ideia das polis e das cidades governadas sob o princípio de que todos se servem juntos e são servidos. A cada cidadão cabiam direitos e deveres e eram exercidos com parcimônia e transparência. O termo Política é a síntese da boa governança. Seus desdobramentos, porém, são pontos para análise, pontos de atravessamentos humanos.
Cabe ao homem a difícil e trágica escolha. Ser ou estar. Numa analogia a Shakesperare que escreveu “Ser ou não ser, eis a questão”, a contemporaneidade remete-nos a uma complicada relação conosco e com outro. Em atenção à ética grega, vem o dilema: Eu sou? Eu estou? Sou um ser político ou estou um ser político? A diferença se traduz na acepção semântica interposta pelas duas palavras.
O ser político se insere em seu meio como um engajado a participar, cultivar, alargar, agregar oportunidades para si e para o outro. Ética grega. E em trocadilho: não estaria a aplicação política falando em grego? Esse é o desafio da alteridade no campo político. Desafio, pois, da forma que é conduzida a gestão política em nosso país cada vez mais fica evidenciado a postura egóica do político em exercício, bem como o estilo populista do agir politicamente. Por vezes não executam a política e sim o ego. E para não fugirmos da responsabilidade, pois falar não é sem consequência e se posicionar na política também não, o que fazemos são manifestações políticas ou procissões de egos?Novos caminhos
Durkeim, um dos pais da sociologia, diz que o ser humano encontra regras de conduta que não foram criadas diretamente por ele. Algo cantado por Titãs na música Estado Violência. O ordenamento massacrante do superego. Elementar. A Política é a ciência capaz de impor ao homem regras não criadas por ele e estas serem praticadas até hoje. A constituição da Inglaterra data de 1215 e os ingleses vão muito bem obrigado. Por um lado, a existência da regra torna-se o homem regido por uma lei, por outro há um impulso em derrubá-las. Freud apontava que o supereu, instância de cunho moral do aparelho psíquico, oferece contorno, mas é ambivalente, ao que protege, ameaça. Quanto ao impulso de derrubá-lo, Freud trabalha seus detalhes em Totem e Tabu no mito primevo. Aqui, reside o encontro das águas, de certa feita, o homem ser político atual não estar acordado com as regras vigentes, pois estas não atendem suas conveniências. Faz-se necessário buscar o caminho que leve a satisfação do querer moderno. O prazer de um lado, e suas adaptações de outro faz perder algo de sua essência.
O querer torna imperativo na conquista do espaço, na influência política, no aninhar de ideias que vão produzindo cada vez mais políticos preocupados com seu status quo do que, literalmente, com a vocação do ser político.
Em Guimarães Rosa, saboreamos “quem elegeu a busca não pode recusar a travessia.” Eis uma tratativa em nos dizer que qualquer escolha que tomarmos, sempre nos apontaremos para aquilo que nos é base, a nossa convicção, e aquilo que é nosso desejo, a nossa convivência. Fronte a esta política, que a convite de Rosa não poderemos recusar a travessia e que não podemos fugir de nós mesmos, como nos posicionamos?
Voz política no Brasil
Não é da absurdez das coisas saber que o momento político brasileiro vai delineando contornos preocupantes. Já é discurso ultrapassado se é esquerda, ou direita. Nem mesmo comunistas metem medo. Militares, um retrato na parede, apesar de bandeiras nas janelas. Todas essas ideologias foram substituídas pela incrível capacidade de político se entregar a jogos caros de corrupção.
Rubem Alves compara o político a um jardineiro. Este cuida do jardim, local aprazível, de liberdade e poesia. O jardim é uma extensão da casa. O político cuida da casa. A casa é de todos. Cuidar é governar. É buscar soluções para conflitos, uma resposta para um dilema de alguém. O jardineiro com seu talento vai montando seu jardim, é algo restrito. O político é irrestrito, sua capacidade de se fazer o jardineiro de todos consegue suprir a falta, superar o desemparo. O sujeito é um ser da falta. O seu dilema é o desamparo. A política não pode fazer cessar o desejo, o lugar de sujeito e tampouco sua voz!
O cenário contemporâneo das relações humanas do Brasil e do mundo, nos últimos tempos, assim como historicamente, nos permite pensarmos o que é fazer política. Para tratarmos da política de um país e modelo de civilização é necessário termos estudado sua História. A história de vida de um país nos diz muito de seus mal-estares e configurações sociais.
É uma luta o ganho político! Não foi nada fácil chegarmos até aqui, termos conquistados o espaço para a voz e para a posição de sujeito nas decisões sociais. É suada a pedra angular no qual repousa a civilização. É uma batalha de sangue a aquisição do poder, da decisão e do movimento de uma nação.
O poder quando dividido a todos, tal como nos escritos da democracia, leva também a responsabilidade a todos e dela não podemos fugir. Temos vozes e temos que nos responsabilizar por elas, caso queiramos fazer política e nos posicionarmos nas construções que desejamos. Na política também é válida a indagação freudiana “qual sua participação naquilo que você se queixa?” (Freud, 1985) Este é um enigma ético para pensamos o lugar do sujeito na política, seja na política de seu sintoma, seja na política dos laços sociais. 
A Política das Massas
A psicologia das massas obstrui a análise do eu e é preciso escutá-la. Política se faz nas beiras e eiras da linguagem, dos afetos e suas propagações. É preciso falar e escutar para fazer política, caso contrário será dispêndio de um gozo, ainda que em meio a uma massa, egoísta nas plataformas da civilização que rompe com os laços sociais. Ainda que em meio a uma massa esse gozo egoísta poderá fazer “eco-ações” e descer degraus na civilização.
Ao falarmos de gozo em psicanálise estamos necessariamente falando de algo com caráter egoísta, satisfatório e destrutivo em si mesmo. Trata-se de uma satisfação exacerbada de um ‘Mais Além do Princípio de Prazer’ que obedece apenas os regimentos daquele corpo habitado psiquicamente pelas pulsões que lhe move. O gozo desconsidera o caráter político, desconsidera o lugar do outro. O gozo, advento pulsional, desconsidera o social, não faz laço e busca a qualquer custo certa destruição para satisfazer-se. Com gozo não se faz política, ainda que na política tenha quotas de gozos. O gozo é o excesso pulsional desabitado de linguagem, busca em seu traçado a destruição e uma economia libidinal zerada. A dita política do ódio, por exemplo, é uma destruição do fazer política, das vozes e das construções sociais.
Manifestações
O ato de manifestação é legítimo e necessário. Ainda que demande certo cuidado, podemos fazê-lo hoje em dia – mas nem sempre foi assim. Em psicanálise, temos que a manifestação deve ser escutada e elaborada após ser levado à clara por palavras o conflito do desejo. O mesmo acontece com as histerias e assim acontece com a política. A manifestação diz da posição do sujeito. Manifesta-se algo do desejo, da insatisfação, do conflito, da busca por algo novo. É o inconsciente ganhando ato, manifestado em ação e, neste caso, é necessário escutá-lo para algo no avanço político elaborar.
Podemos usar a manifestação de várias formas: para gozar, para promover meios ao desejo ou para relatar pedidos de socorro em formações inconscientes, algo do tipo do desamparo, “pai, não vês que estou queimando?” (Freud, 1900).
Em política também estabelecemos relação com a lei, com a ordem, com o superego e devemos fazer algo nosso com aquilo que herdamos dos restos do trono, proposta ética esta que Freud herdou do poeta. Temos uma formação de compromisso com a sociedade em que vivemos, e formação de compromisso em psicanálise nos faz pensarmos em uma retificação subjetiva. Dói para se organizar e ainda assim é impossível, mas pode tornar-se suportável e avançar ainda que manquejando.
Nas manifestações podemos ainda utilizar do ato político, irmos às ruas, batermos panelas, mas tudo será em vão, politicamente falando, se o gozo do ódio mutilar a cautela do avanço. Se isto for para não escutar é inválido para promoção política. Parece que em política todos querem ser escutados, mas poucos são os que realmente querem escutar e se comprometer com o que diz, e isto se torna uma problemática, pois trata apenas o excesso de afeto, não elabora nada que diga da relação com causa ou com construção de um novo fazer. Efeitos aos ares e se salva quem puder! Em política não pode ser assim. Temos que buscar a linguagem para retrilhar as ações.
O “trans-torno” político, que poderia ser uma bela palavra, movimento em volta, adoece justamente por não ir à causa, por tentar contornar apenas os efeitos, busca ética pela estética; e como fica o que deve ser feito, que arranham ouvidos e desassossega poderosos capitalistas e mestres da sociedade? A política deve provocar os detentores de toda espécie de poder e não fazer pactos cegos com estes. Política não é bonde para sintomas próprios é um arranjo dinâmico para viver em sociedade. É um pensar em todos, por todos e com todos, daí ser incessante. A política é a pulsão que carece de linguagem da civilização! 
O mal-estar e o estar mal na política
Na construção de civilização, renunciamos parcelas da descarga de ódios, realizações de desejos e possibilidade da impossível felicidade plena, em troca de parcelas de segurança e espaço para desejar, falar, tentar ser. A política é um dispositivo para lidar com os mal-estares na civilização, menção ao texto freudiano de 1927. A política é inerente à construção de vida e ao processo social. Não se vive sem política.
Entre atos e palavras podemos nos deparar com laços sociais, amores e ódios horrendos de neuroses individuais. Algo do tipo; ainda que gozo não se discuta é pela palavra que se faz a política. Ter gozo na política não significa que é com ele que se faz política. Política se faz com palavras não carregadas de gozo, mas carregadas de filosofia do viver em civilização.
O ódio na palavra busca silenciar, a palavra da política busca um modo de falar. A diferença é que, para se fazer política, não se pode eleger as palavrase carregá-las de ódio, tão somente. E, sim, na urna dos desejos, cada um deve eleger as palavras que apontam as faltas e que permitam a escuta. É com escuta, pela sintonia do mal-estar e no ritmo do repensar, que se faz política! Lastimavelmente, não é o que temos assistidos na maioria das vezes nas redes sociais e bancadas do congresso do nosso Brasil.
É preciso desbancar toda e qualquer bancada que estiver lutando pela segregação em nome do que for e que luta para impor os preconceitos. O estar mal posicionado na política só não soará hipócrita se nos comprometermos com a causa considerando que os desejos do país vão além dos nossos e que política não é para segregar e,ainda, que não cabe em qualquer que seja o desmedido preconceito. Preconceito grande é caldeirão vazio de ódio. Com pré-conceito a política torna-se inválida e perversa. Para esta bancada que em toda época, ora ali e ora aqui, que luta pela exclusão com máscaras políticas, fica o recado: “diga-nos o que tu negas que escutaremos quem tu és!”.
Falta, na política brasileira, talvez na mundial, a escuta e a humildade de assumir que o saber de toda a nação não é o nosso e que se não escutarmos e não abrirmos mão do narcisismo de partido não faremos política, faremos guerras das pequenas diferenças para somente depois fazermos algo verdadeiramente político. Estar em um partido sem estar na política é um estar mal na política e estar em um partido vedado por ele, estando na política é um mal-estar na política.
Vale destacarmos que o ódio do humano com a civilização, devido as renúncias, parece ser tão grande que muitos não conseguem usar da palavra na política sem antes atacar e reclamar. O “homem lobo do homem” quase sempre marca presença antes de entrar nos parâmetros da civilização, isto quando entra.
Na política o gozo do saber tem tomado conta um saber fechado, protótipo de uma ilusão da verdade. A verdade do sujeito não é verdade de uma nação. A sua verdade não é a verdade do país. A verdade política não existe. Pois, ali onde a verdade existir como ponto de fechamento a política é assassinada. A verdade é a hipocrisia narcísica daquele que se acha o umbigo da nação. É preciso que ali onde haja um ponto ilusório de verdade advenha construção social.
A briga de partidos é uma divisão no processo de defesa fronte à responsabilidade do país. É um travamento. Uma fixação. Ainda que a política seja não toda, ela não deve ser vista como jogo de partido. Não se resume a isto. A política começa justamente ali onde termina o processo eleitoral, deve ser causa de desejo nas facetas de encontros e desencontros da vida. A política toca em temas que “trans-tornam” o íntimo humano, sua saúde, desejo, andanças e tropeços. A urna é uma porta voz de nossas apostas, outras vozes são o que fazemos no cotidiano, é sutil a voz política do nosso dia a dia, temos que valorizar as sutilezas, seja na política, seja em nós mesmos.
O Brasil está passando por um momento interessante no uso de suas palavras, momento “peri-gozo”, talvez, mas que merece atenção. Por exemplo, pedir a intervenção militar, atacar os direitos humanos sem argumentos, não querer escutar e ainda crer que está fazendo política nos mostra um destino do ódio na palavra sem crítica, repleta de destruição, força contrária aos avanços que eles próprios dizemdesejar. Esta é talvez a pior corrupção, uma corrupção do próprio desejo.
Segregar para avançar?
Pedir intervenção militar e o ataque aos direitos humanos pede um capítulo à parte no jogo político e neste escrito. É inadmissível, vale repetir aqui, que pensemos em fazer política com segregações, preconceitos, e sem comprometimento. Um pouco de pensar, para lidar com o desejo, não faz mal.
Quando a política inclina-se a silenciar o sujeito, suas posições sejam elas quais forem, em prol de simplesmente gozo próprio, a psicanálise é convocada.
A exclusão perpassa ditas políticas de várias épocas com deslocamentos. Por exemplo, excluíram os loucos, por despreparo dos ditos normais. Excluíram os pobres e negros pela perversão da crença do poder. Excluíram os usuários de tóxicos e outros, por julgamentos preconceituosos. Excluíram e ainda querem excluir os homossexuais por dificuldades com a própria sexualidade. Excluíram todos aqueles que não fazem parte do ideal deles de civilização e se aceitarmos isto como condição política, quem restará e para onde iremos?
Fazer política é defender os direitos humanos, o resgate da dignidade da democracia, o estado laico e não permitir, tampouco autorizar, que a sexualidade própria ameace a construção dinâmica e polimórfica da vida em civilização. Fazer política desmorona certas ilógicas capitalistas que excluem os sujeitos. É pelo espaço da voz política que temos que buscar a promoção da dignidade humana. Somos responsáveis pela política em que vivemos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, Sigmund. (1913). Totem e tabu e outros trabalhos Civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIII). Rio de Janeiro: Editora Imago
FREUD. Sigmund. (1914) Sobre o Narcisismo: Uma Introdução.(Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIV)Rio de Janeiro: Editora Imago.
FREUD. Sigmund. (1922) Além do princípio de prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos, (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII) Rio de Janeiro. Editora Imago.
FREUD, Sigmund. (1930). O futuro de uma ilusão, o mal-Estar na Civilização e outros trabalhos (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XXI). Rio de Janeiro: Editora Imago.
ROSA; João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: Veredas. 1ªEd. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. Biblioteca do estudante.

O poder da palavra: A política atravessa o campo humano de projeção ao mundo. A nossa mais eficaz ferramenta para transmissão de Política é a palavra. Política é algo que se discute, ou, caso contrário, como poderíamos promovê-la. Todavia, sabemos que as palavras são carregadas de afetos, destinos vários elas poderão encontrar, dizem de nossa posição de mundo e condição de momento. Perguntamo-nos ao assistir e participar do cenário brasileiro atual se toda palavra faz jus ao objetivo político. De imediato vem-nos a resposta; não! Nem toda voz é política, algumas são apenas barulhos de ódio. O destino do ódio na palavra não promove a política, promove alvoroço e “re-volta”, inclinação ao passado e presente de mídia, nada que leve a um novo futuro.

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