domingo, 28 de setembro de 2014


O NARCISISMO NA CONTEMPORANEIDADE

Por Hélio Ferreira

Imagem: Narciso (1594-1596), por Caravaggio.


“Debruçado no lago Narciso, surpreso, se vê amado” - Eugénia Tabosa
O Narcisismo, em psicanálise, representa um modo particular de relação com a sexualidade. É um conceito crucial no seu desenvolvimento teórico. O narcisismo é um protetor do psiquismo e um integrador da imagem corporal, ele investe o corpo e lhe dá dimensões, proporções e a possibilidade de uma identidade, de um Eu. O narcisismo ultrapassa o auto-erotismo e fornece a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.
 Em seu texto À Guisa de Introdução ao Narcisismo, Freud, diz que o termo narcisismo designa inicialmente o comportamento de um indivíduo que trata seu próprio corpo como um objeto sexual. O seu corpo absorve, nesse comportamento, toda a energia sexual.
Eliana Rigotto Lazzarini e Terezinha de Camargo Viana em seu artigo: Ressonâncias do narcisismo na clínica psicanalítica contemporânea, nos dizem que diagnósticos cada vez mais frequentes de depressão, drogadicção, anorexia, bulimia e síndromes mais complexas constituem reflexos de uma cultura que passa por momentos de indefinição e mudança com relação a valores sociais rompendo com aspectos que eram considerados primordiais desde tempos anteriores. Pode haver uma falha básica na constituição do eu narcísico ou mesmo nas instâncias ideais desses sujeitos, ou seja, uma falha no recalcamento primário atribuída a uma espécie de insuficiência (ou ineficiência) dos cuidados maternos na primeira infância. Como consequência, a escolha do objeto (o outro da relação) se daria com base na eleição narcisista na qual ocorre a identificação. Na impossibilidade de escolha do objeto externo elege-se o objeto a partir da imagem e semelhança do próprio eu transformado em seu próprio ideal que se converteu em substituto do investimento erótico. Supõe-se que é pela identificação narcisista com o objeto que o investimento libidinal retorna ao eu não se direcionando ao objeto externo como esperado ficando, portanto, estagnado. A impossibilidade do estabelecimento dos processos terciários não poderia se dar e consequentemente a saída da condição narcísica para a condição edípica, substrato da alteridade, também não se daria.
As desordens narcisistas são mais coerentes com uma sociedade permissiva e também mais eclética em suas manifestações, como a que vivemos na atualidade. Como observa Lipovetsky (2005): “A patologia mental obedece à lei da época (...): a crispação (contração) neurótica foi substituída pela flutuação narcísica” (p. 55).
Na atualidade percebe-se haver um deslocamento da função paterna. Até pouco tempo atrás, na ausência de um “pai” que exercesse o papel de lei e proteção, o mesmo era exercido pelo estado ou pela religião. Na contemporaneidade nem o estado, nem a igreja conseguem fazer mais este papel. Hoje, qualquer eleitor pode e deve discordar de palavras ou atos de seus governantes, quando estes não lhe agradam. Para católicos  a palavra do papa já pode ser contestada. As novas configurações de um mundo cada vez mais narcísico, globalizado e consumista, deslocaram a função paterna para a ciência, o capitalismo e a tecnologia. Porém o nome do pai está a deriva, e quando o nome do pai está a deriva o sujeito também está.
Para reconhecermos uma consequência do deslocamento do nome do pai, e consequentemente de uma nova forma de narcisismo que vem se apresentando no mundo, é só voltarmos nosso olhar para as redes sociais. Ali observaremos um funcionamento narcisista por grande parte de seus participantes onde a fronteira marcada entre o que é público e o que é privado já não existe. Embora estes sujeitos tenham pouca capacidade para perceber o outro,  há uma exagerada preocupação com a sua própria aparência, apresentam uma grande necessidade de serem amados e admirados, almejam “curtidas” e elogios e se sentem inferiores e infelizes quando criticados ou ignorados. A todo momento busca-se o olhar e o reconhecimento do outro.  Levando-se uma vida emocional superficial. Um Narciso empobrecido de linguagem, mas rico de olhares, imagens e amigos virtuais.
Eliana Rigotto Lazzarini e Terezinha de Camargo Viana no artigo citado a pouco,  nos perguntam: nos dias de hoje, o que podemos dizer de uma sociedade como a nossa que se vê compelida por uma revolução calcada nos avanços científicos e tecnológicos, muitas vezes, em descompasso com a possibilidade de apreensão imediata pelo indivíduo; uma sociedade competitiva que pode gerar o empobrecimento da experiência coletiva e valorizar os interesses e as demandas íntimas. Que bases essa sociedade estaria oferecendo para a constituição da individuação/subjetivação? E mais, o que dizer dos sujeitos, estes não estariam sendo sobrecarregados e prejudicados pelos padrões de eficiência dessa  sociedade altamente desenvolvida? E qual o destino desse sujeito?  Nos momentos de indefinições, de grandes e rápidas mudanças o sujeito esboça um movimento regressivo, um movimento narcísico direcionado a si próprio, ou seja, o eu deste sujeito se comporta como objeto de seu próprio investimento o qual se caracterizaria por uma idealização de si, uma forma de se sentir pleno. Pensamos que o destino do sujeito hoje, em nossa sociedade, seria uma volta a si marcada pelo retorno à constituição da perfeição narcísica e a proteção e satisfação da vivência simbiótica com o objeto primordial alojado dentro de si. São sinais inerentes a essa subjetivação o stress a depressão e uma inclinação à angústia e ansiedade mais profundas causadas pelo desapego da coisa externa. Nesta condição, o sujeito vê ameaçado seu projeto de vida pela impossibilidade de poder vivenciar plenamente suas experiências.
O publicitário João Matta em seu texto: Narcisismo e a sociedade do espetáculo: o ideal do ego no mundo contemporâneo, nos diz que o narcisismo... pode ser, ao invés de um sinônimo de uma sociedade individualista e egoísta, uma importante porta de saída para o sujeito atual, oprimido a gozar o tempo todo a partir do consumo imposto pela moda.
Certas formas de pensamento chamam a atenção porque fazem uma nova cartografia da subjetividade e do mal-estar  na contemporaneidade. O cultivo da alma foi deixado de lado sendo o cultivo do corpo nosso bem supremo. Estamos vivendo em uma cultura com características crescentemente narcisistas; onde há um predomínio do uso da imagem de ação em vez da reflexão para lidar com a ansiedade e um incentivo exagerado ao consumismo e ao culto ao corpo. O corpo é o cenário onde nosso mal estar se apresenta. Quando não se consegue falar ou pensar sobre as intensidades pulsionais, tende-se a dar vasão a estas intensidades através da ação, ou sobre o próprio corpo. Porém, devido a questão narcísica o sujeito inconscientemente opta “explodir” pela ação. Neste caso o sujeito tem dificuldades de simbolizar suas questões, e marcado pelo narcisismo negativo encontra suas saídas pela pulsão de destruição, sendo impulsionado a cometer atos marcados pela agressividade e criminalidade. Prevalecendo a ausência de pensamento e linguagem.
Como no Mito do Narciso, o paciente com esse tipo de funcionamento constrói sua sensação de engrandecimento da auto-estima através de uma intensa desvalorização, rejeição e abandono dos objetos. E sobre a base dessa rejeição que o organismo se estrutura. (Lewkowicz, 2005).
Ainda assim a psicanálise demonstra que há o narcisismo saudável e necessário, que seria uma das fases essenciais no desenvolvimento da libido. O narcisismo não constitui por si só uma patologia, ele é um integrador e protetor da personalidade e do psiquismo.
Em uma sociedade cada vez mais individualista, com sujeitos que se vem obrigados a gozar o tempo todo, faltam palavras e sobram atos. A psicanálise nos convida a trabalhar no sentido da escuta do sofrimento e do mal estar destes sujeitos, considerando suas subjetividades e auxiliando-os na elaboração de novas formas de subjetivação. É fundamental que os mesmos encontrem meios de contenção e simbolização do excesso pulsional, para que se torne cada vez menos intensa a pulsão de destruição (seja através de práticas sádicas ou masoquistas).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ELIANA RIGOTTO LAZZARINI; TEREZINHA DE CAMARGO VIANA ; Análise Psicológica (2010), 2 (XXVIII): 269-280; Ressonâncias do narcisismo na clínica psicanalítica contemporânea.
FREUD Sigmund. Introdução ao Narcisismo ensaios de Metapsicologia e outros textos (1914 1916) In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago
FREUD, Sigmund (1996). O mal-estar na civilização. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

MARIO ROSSI MONTI; Contrato narcisista e clínica do vazio Mario Rossi Monti Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.11 no.2 São Paulo June 2008.


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