FATIAS
DE ANÁLISE: DESASSOSSEGOS DO INCOMPLETO!
Por
Eduardo Lucas Andrade
Fale!
Esta é a base da regra fundamental da psicanálise, a base da associação livre que foi ensinada à Freud por uma paciente. A psicanálise tornou-se a clínica do
detalhe, dos extravios pelos rechaços do inconsciente, dos escapes e errâncias
incompletas do desejo impossível de ser realizado como um todo. Avançando em
fatias a psicanálise começou a apostar em uma escuta de cunho estrutural, no
suposto saber do psicanalista e na história de vida do paciente. Desde Freud a
psicanálise foi atiçada pelo desassossego do incompleto! Freud propunha-nos a
pinçarmos os piores demônios do fundo da mente e convocá-los a uma conversa.
Apostar na associação livre é saber que somos reféns e senhores de fatias de
nossa história de vida. É saber que somos seres fatiados, viventes do momento.
E assim, como Freud fazia em sua teoria, fatiando-a em cartas, escritos e
descobertas, o grupo de estudos Fatias de Análise busca investigar o inconsciente
e promover um saber fazer com o incompleto.
Analisar,
o que é isto? É algo impossível, segundo Freud. É algo que trabalhando com a
delicadeza da vida mental assemelha-se ao trabalho da análise química; ambos
trabalham com materiais explosivos e por isto o analista caminha suave, com a
cautela antes do gozo, conforme propôs Freud. Analisar é, antes de tudo,
promover espaço para o inconsciente, é apostar no inconsciente como abertura de
vida, é, saber que ainda que arruinados pelo êxito podemos avistar urdiduras de
um desejo não anônimo! É fazer falar o que faz sofrer, o que faz viver, o que
nos faz ser. Para isto é preciso saber respeitar o atemporal de cada um,
acolher e promover transferência, para que aos poucos, de fatias em fatias, se
possa suportar aquilo que angustia. Falar, faz as coisas ficarem claras, faz as
coisas existirem e o inconsciente ama Isso.
Tranche d`analyse!
Este termo francês que representa fatias de análise, lasca analítica, análise
em pedaços, é necessário para se pensar a vida psíquica e o trabalho clínico da
psicanálise. O inconsciente é repleto de fatias da vida de cada um, fatias tenazmente condensadas entre si. São conjuntos de registros
em fragmentos que guarda a verdade impossível de ser dita por completo. Operar
o inconsciente pela escuta flutuante e aposta na palavra é de caráter
cirúrgico, tendo que, por vezes, aguardar um tempo entre uma ou outra seção de
análise. Um tempo para que as pulsões consigam encontrar novas formas de ficarem à deriva. Acontecimentos podem marcar, em caráter de surpresa, um desassossego
no 'reino do ilógico', colocando o sujeito novamente a demandar análise, e é
assim, que recebemos cotidianamente em nossos consultórios senhores desalmados
de seus desejos, ainda que estes já tenham experiência de análise. A psicanálise
arquiteta sua escuta no flutuante. A escuta flutuante, esta escuta que pinça
fatias preciosas dos dizeres, é uma escuta que mantêm desperta a posição do
analista que deverá estar abstinente de seus julgamentos, desnudado de
preconceitos e comprometido com as sutilezas do inconsciente daquele que foi
convidado a expressar como lhe convir. É este tipo de escuta que convoca o
inconsciente. O inconsciente ama aquele que lhe dá voz! Pra que esta escuta
seja possível Freud alertou aos analistas quanto à necessidade da supervisão e
de tempos em tempos estarem se submetendo a tranches
de suas próprias análises. Afinal, analistas também sonham!
Interpretação
dos sonhos foi um marco teórico e prático importantíssimo para os estudos da
psicanálise. Foi lá que Freud descobriu que o material registrado em nossa
história de vida é um material fragmentado, fatiado, e que este material pode se
deslocar, condensar e manifestar-se nos dizeres; são as manifestações do
inconsciente. O inconsciente se manifesta é por Fatias! Na sutileza dos atos
falhos, nos sentidos dos sintomas, na causalidade chistosa, no obscuro dos atos, nos gozos do corpo e na realização
alucinada de desejo nos sonhos. Cada uma destas manifestações teve a atenção de
Freud em épocas diferentes. A obra freudiana foi constituída em Fatias, com
desdobramentos marcantes em diferentes datas e acontecimentos. O movimento
psicanalítico ainda nos dias de hoje segue em sua incompletude desassossegando
construções teóricas e clínicas. A cada novo caso, nova incompletude. Um ato
inquieto é o que marca a eficácia analítica que nada garante.
Ato
de Psicanálise; é esta a lógica do grupo de estudos Fatias de Análise, que
reconhece a necessidade de uma formação atemporal, interminável e sempre
renovável por parte do analista. Nesta lógica buscamos fazer um movimento que não seja um movimento retilíneo
uniforme, mas sim um movimento de desejo, de escuta, encurvado, alucinado, flutuante, ainda que embasado na esfera de
interesses; interesses de fazer a diferença absoluta. Fornecendo espaço para estudo e escuta o grupo de Estudos Fatias de Análise promove construções sempre atentos aos jogos de lugares e poderes, pois além de fálicos os lugares são sempre tronos sexuais! Não nos deixemos seduzir, o que buscamos é movimentar o estudo, diálogos e transmissão da psicanálise.
Sexualidade
é algo parcial, pulsional, que promove a perversão de cada um, uma perversão
polimorfa, foi o que nos ensinou Freud. Neste ritmo, nas fatias da
sexualidade, o Grupo de Estudos Fatias de Análise convida aos interessados em
compartilhar de sua libido, descendo do salto narcísico, uma polimorfia da
transmissão e diálogos da psicanálise. Assim caminha o Grupo de Estudos Fatias de Análise, desassossegado pelo incompleto!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: OBRAS COMPLETAS DE SIGMUND FREUD

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