“Cumplicidade
e responsabilidade.”
“Uma visão da influencias destas no ambiente familiar”
Por: Autor: Gildásio Eustáquio
Pinto
O
que é a responsabilidade, senão o ato de ser responsável por aquilo que lhe é creditado.
O que é a cumplicidade, senão o efeito de encobrir uma ação negativa de outrem.
A ótica semântica desses dois termos opõe-se quando retratamos as relações
familiares, permeadas por posturas, atitudes, incoerências e contradições.
O que é paternidade? Aos olhos da
poesia, mestra de nosso caminho, ser pai é uma dádiva, uma paixão vida afora. O
primeiro olhar, o primeiro acolher é impactante. Forma e vigor. Entrega e
partilha. Ser pai é pautar um caminho onde amor e dor andarão de mãos dadas, um
ensinando o outro a lidar. Uma miríade de passos olhares, abraços. Abandono.
Por outro lado, devemos esclarecer o
objetivo deste artigo. Até onde pais são responsáveis pela formação moral,
psíquica dos filhos ou quando não, exercem uma cumplicidade mórbida nas
relações de seus filhos. Não é a cumplicidade do carinho, do afeto, mas sim
aquela que vem ao longo dos anos elevando a estatística sobre ocorrências
policiais.
Pesquisando em jornais e revistas,
encontraremos casos e casos sobre a violência praticada por adolescentes com
colegas de classe e até mesmo contra seus próprios professores. Em muitos
casos, pais ajudam os filhos nessas agressões.
“Uma professora de história foi cercada e agredida pelos pais de uma
aluna de 12 anos na saída da Escola
Estadual Antonio Miguel Pereira Júnior, no bairro Central Parque, zona oeste de
Sorocaba (SP). A mãe, o padrasto e a própria aluna desferiram socos e pontapés
na professora quando ela atravessava a rua para entrar no carro do marido,
parado na frente do portão da escola. Jornal Estado de S.Paulo,
05/04/2013”
“Uma
professora foi agredida com tapas no rosto dentro de sala de aula da Escola
Estadual Rotildino Avelino, localizada no município de Coronel Fabriciano, na
Região do Vale do Aço, em Minas Gerais. O motivo da agressão da estudante seria que a
professora teria pego um bilhete que a aluna passava para uma colega da sala. O
conteúdo do bilhete não foi divulgado”
Os
casos acima são apenas a ponta de iceberg que se criando nas relações
familiares. A falta de limites dos filhos. Pais não conseguem impor sua
autoridade, não conseguem dialogar com seus filhos e partir daí, perdem o
controle do ambiente familiar. De outra maneira, a delinquência infanto juvenil
percorre o caminho da passividade, ou seja, os jovens não encontram um sentido
para a vida e se envolvem no caminho das drogas.
Segundo
Márcia Neder, em seu livro “Despostas Mirins (2012) a família vem perdendo sua
capacidade de sustentação social a medida que seus pares ocuparam de outras
funções, ou também as novas configurações familiares contribuem para que haja
uma deterioração dos laços familiares. Para Márcia, esse fenômeno tem origem
nos anos 1970 com abdicação do termo pátrio poder e consequentemente a entrada
da mulher no mercado de trabalho, por consequência a luta pela paridade de
direitos e por último um feminismo a solta na sociedade.
Também
devemos salientar que nossa sociedade é impregnada por outros dois fenômenos,
cada qual mais venenoso que outro: a intolerância e imediatismo. O comportamento
das pessoas evidencia uma postura intolerante a medida que se observa as
relações no transito, nas repartições, parece que todos querem resolver seus
problemas sem medir as consequências. Por tabela surge o imediatismo. O sujeito
quer uma panaceia que resolva de vez suas angústias e frustrações. Não querem
se comprometer.
A
repercussão disso na família. Há o caso de uma anedota, onde durante o jantar,
a filha chorando diz que não é mais virgem. Segue uma discussão entre os pais,
cada um culpando o outro pela situação, até quando a garota a explica: Não
serei mais a virgem no teatro de natal, a professora me trocou. Quem pagou o
pato?
Seguindo
a lógico da intolerância e do imediatismo e observando o papel da pulsão na
vida do sujeito, é que queremos contribuir com a nossa discussão. Saber das
idiossincrasias norteadoras do pensar e agir do sujeito enquanto um ser
individual e coletivo. Até onde é capaz de influenciar quem está a sua volta,
principalmente, os filhos, de maneira positiva ou negativa, se caminha numa
pulsão de vida ou pulsão de morte.
A
autoridade exercida pela família determina o curso de vida do sujeito. Sem ou
com ela, este estará fadado a descobrir por si próprio todas evidências de seu
comportamento. Embora a psicanálise reconheça que a autoridade apareça e exerça
um papel, queremos discutir se há uma ruptura dessa autoridade levando o
sujeito a uma divisão. Segundo Freud, o sujeito se divide, ao tornar-se sujeito
como processo de defesa do ego.
O
narcisismo contemporâneo inquire novas vias de contato, relação e interação com
aquilo que chamará de autoridade. Sabemos que a ameaça da castração é uma
barra, um princípio de autoridade, força o sujeito a posicionar em mundo. Daí,
o princípio de autoridade se constitui, se instala, e o sujeito consegue
trabalhar seus entornos e contornos com habilidade psíquica.
Nisso
a posição do sujeito reflete a entrada ou atuação do superego. Este como
instância coercitiva reveste de uma condição de culpa perante seus atos. Essa
condição estabelece que sujeito vai agir e reagir numa onda, de acordo com a
sua posição.
Dentro
do ambiente familiar, quando os pais assumem com responsabilidade a formação de
seus filhos, o percurso da criação e educação, princípio universal – o pátrio
poder – se traduz nos fenômenos das pulsões, de vida e de morte. Uma como a
outra são verso e reverso de uma mesma moeda. Uma criança atenta ao olhar do
paterno tende a revelar seu comportamento, como esse se direciona, os afetos
vida afora.
A
cumplicidade com esse olhar será o viés de atuação na criança em suas redes
sociais. Acatará as ligações como uma estrutura de poder. Não é o caso de uma
obediência nem de uma disciplina, mas como acatar e atender essa forma de
expressão
A
novidade será uma condição de deleite, ou seja, o olhar expressará um gozo em
todo qualquer momento ou contato com mundo exterior. De dentro para fora,
autorização e no caminho inverso de fora para dentro, o afeto.
Vejamos
o caso de Paulo (nome fictício) 11 anos, filho de pais solteiros. O pai não
consegue introjetar a autoridade e desdenha da posição do pai. O menino desloca
seu olhar conforme sua conveniência e reproduz seu comportamento de acordo com
aquilo que é seu deleite. Não há uma inscrição de pertencimento.
Outro
caso bastante proveitoso, recente, um menino de 11 anos, se põe a brincar
próximo da jaula de um tigre. A ousadia do menino extrapola toda recomendação
de segurança, ao olhar do pai tudo está normal. Os excessos do menino não foram
coibidos pelo pai, ausência de um símbolo na força da lei, a autoridade. Sem
como advertir, o resultado foi o ataque do tigre.
Marcia
Neder traduz esse comportamento como de um déspota mirim, onde foge a
responsabilidade como medida de segurança e emerge uma cumplicidade mórbida do
pouco que pode fazer. Registro a opinião do veterinário do zoológico – quando
falha a autoridade familiar, paterna em vão é toda segurança técnica.
Nesse
caso, podemos fazer o conceito de dissidência – a ação ou estado de espírito de
quem rompe com autoridade estabelecida, não implicando uma ideia de separação
ou divisão – Disso chegar uma conclusão de que responsabilidade ou cumplicidade
no âmbito será o mesmo de traduzir um pensamento de Sobral Pinto: “Aprendi a
defesa da autoridade sem prejuízo da liberdade, autoridade sem liberdade é ditadura,
opressão; liberdade sem autoridade é libertinagem”
Destarte,
acrescentamos outra ideia. A psicanalise indica um suposto saber, o apontamento
da falta como raiz de construção da libido, mas aqui chegamos a ideia de um
“suposto lugar”, o lugar do olhar, o lugar social, o lugar privado do ambiente.
O pátrio poder – a palavra não pode ser contestada, se for há ruptura. Em algum
lugar, o suposto lugar implicará o protagonismo do contorno da lei. O lugar do
pai é incondicional um suposto lugar que ora pode ser representado até mesmo num
objeto transacional, numa alusão a Winnicott.
Cumplicidade
não é apontar ou tamponar uma falta. Se a responsabilidade é intransferível, a
cumplicidade é a maneira de transferir ou ocupar um suposto saber ou suposto
lugar. Quando, na díade – pai/filho – a estrutura se comunica através de como a
responsabilidade e cumplicidade vão dividir as posições de autorização e afeto,
como numa gangorra. As duas juntas estarão em equilíbrio, com o isso o sujeito
fica suspenso, paralisado, é preciso a movimentação de ora uma, ora outra
alternando no psiquismo do sujeito formas de introjeção e projeção, efeitos
narcísicos sobre a dimensão do ego. Ratificando, a defesa do ego é a própria
constituição do sujeito, sua implicação com a realidade e com as fantasias que
o protegem num jogo de responsabilidade e cumplicidade.
Referencias:
01
– Bacha, Márcia Neder. Déspotas Mirins o poder nas novas famílias. São Paulo;
Zagodoni Editora, 2012.
02
– Faria, Durvqal Luiz de. O Pai possível: conflitos da paternidade possível.
São Paulo. EDUC Fapesp. 2003.
03
– Castro, Edileide. Afetividade e Limites, uma par5ceria entre a família e a
escola. Rio de Janeiro. Wak Editora. 2012. 4ª Ed.
04
– Makilin Nunes Batista, Maycon L.M. Teodoro. Psicologia de Família – Teoria,
avaliação e intervenção. Porto Alegre. Artmed. 2012
05 -- Obras Completas de Sigmund Freud

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